Um hospital é balcão de negócios. O produto de troca é valioso – a vida – e prestadores de serviço falam a língua do dinheiro antes mesmo de saber o que o paciente tem. No meio público, quem arca com os custos é o Estado, mas no sistema de saúde privado é o próprio cliente quem desembolsa os valores (geralmente altos). Sendo assim, não seria estranho pagar para ter um atendimento igual àquele grátis?

“Precisei da Emergência de hospitais particulares três vezes já. Em nenhuma eu consegui ser atendido com menos de uma hora e meia de espera”, queixa-se Elder Lélis (foto), analista de sistemas, 29 anos. “Já encarei filas de 50 pessoas para apenas dois guichês. O pior é que, ao chegar ao consultório, tudo é rápido”, completa.
A namorada de Elder, a operadora de caixa Rafaela Peixoto (foto), 29 anos, mora em Unaí (MG), e sofre com outro tipo de situação: a demora para marcação de consultas. “A gente chega a esperar meses para conseguir se checar com o médico ou fazer exames. Se está assim na rede particular, imagino como está na pública”, reclama.
Saúde financeira
A raiz do problema da espera pode estar na questão mercadológica. “Hoje, tudo dentro do hospital faz parte de um grande consórcio. Tudo é terceirizado”, aponta Belmiro Cardoso de Oliveira, professor de gestão hospitalar da Universidade Católica de Brasília (UCB). Essa realidade é integrada também pelos planos de saúde, que servem de intermediários entre pacientes e centros hospitalares e clínicos.
“Quase 80% dos atendimentos privados são feitos via plano de saúde. Eles tomam parte dos lucros do hospital”, defende o especialista.
Filas
Ainda segundo Belmiro Cardoso, isso diminui a remuneração do profissional de saúde e faz com que ele tenha que fazer mais atendimentos para elevar a renda. “E isso gera filas, pois é feito um esquema de escala para comportar a demanda”, explica.
Reclamações

A maioria dos atendimentos feitos por hospitais particulares é por meio dos planos saúde. Talvez iso ajude a explicar, em partes, o aumento de reclamações contra estabelecimentos de saúde particulares registradas pelo Instituto de Defesa do Consumidor do Distrito Federal (Procon-DF). No ano passado, houve 111 queixas a mais em relação a 2012, resultando em 383 no total. Os alvos foram hospitais, Pronto Socorro, Ambulatório e Clínica Médica.
Reclamar é preciso
Muita gente, no entanto, se indigna com o plano de saúde contratado para questões que vão além de sua competência. “A Emergência geralmente não está contemplada na apólice”, observa a presidente da comissão de Direitos do Consumidor da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional Distrito Federal (OAB-DF), Ildecer Amorim.
Pode ser também que quem não tenha plano de saúde também não receba atendimento adequado. Nesse caso, eventuais problemas devem ser sempre creditados ao hospital que tiver apresentado deficiência no atendimento. “Só reclamando é que podem saber onde e como melhorar o serviço”, aconselha.