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Hélio Doyle

Maioria de parlamentares faz mais negócios que política

As delações premiadas de executivos de empreiteiras estão comprovando o que se sabe há muitos anos: deputados e senadores fazem, no Congresso Nacional, mais negócios do que política. Ou melhor, a política é, para eles, um instrumento para fazer negócios. Tudo se vende e tudo se compra na Câmara e no Senado, de nomeações de servidores à aprovação de medidas provisórias.

Não é diferente na Câmara Legislativa do Distrito Federal, nas assembleias legislativas estaduais e nas câmaras de vereadores. Aqui, cinco deputados distritais, quatro deles na mesa diretora, foram pegos obtendo propinas para viabilizar pagamentos atrasados a empresas da área de saúde. Há casos semelhantes em todo o país.

Toda generalização é injusta: há, no Congresso Nacional e nas demais casas legislativas, os que exercem dignamente o mandato, independentemente de posição política. Infelizmente, porém, é uma bancada bem minoritária, soterrada pela maioria corrupta e adepta do toma lá dá cá.

Apoio a Agaciel é discutível, mas coerente

Não pega nada bem para o governador Rodrigo Rollemberg ter o distrital Agaciel Maia como seu candidato à presidência da Câmara. Ainda mais agora, quando o país assiste à degradação completa da política, dos políticos e dos partidos. No momento em que precisa mostrar que nem tudo está perdido, o governador apoia um político já condenado por improbidade administrativa, que responde a outros processos e é investigado pela Polícia Civil de Brasília.

Não vale, a essa altura, recorrer à conversa de que nada transitou em julgado e todos têm o direito à presunção de inocência. A questão é que uma coisa é o processo jurídico, outra é o fato político. Não há como negar que o passado de Agaciel Maia não o recomenda, especialmente neste momento, para presidir a Câmara Legislativa.

Rollemberg, desde o início do mandato, manteve as práticas de velha política. Ao apoiar Agaciel, está sendo, pelo menos, coerente.

O passado condena, e como

Agaciel foi, durante 14 anos, diretor-geral do Senado, que já era, na época, o antro de corrupção que é hoje. A diferença é que ninguém investigava para valer, a não ser em situações pontuais. Os senadores, naquela época (1981-1995) achavam, com razão, que eram intocáveis e estavam acima de todas as instituições.

Protegido do presidente José Sarney, o então diretor-geral mandava e desmandava no Senado, a ponto de ser chamado de 82º senador. Nomeava e demitia, promovia servidores amigos, aumentava salários, contratava as empresas que queria para prestar serviços e vender produtos, emprestava dinheiro a senadores e escondeu os 663 atos secretos assinados por Sarney. Tinha até gabinete secreto.

Foi afastado quando as irregularidades vieram à tona e descobriu-se que tem uma mansão avaliada em R$ 5 milhões não declarada ao imposto de renda. Resolveu, então, iniciar uma carreira política em Brasília e candidatou-se a distrital, sendo eleito em 2010 e reeleito em 2014.

A ferroada é inevitável

Pensando em se candidatar em 2018 a deputado federal ou, de preferência, a senador, Agaciel Maia tem na presidência da Câmara uma boa alavanca para se tornar mais conhecido do eleitorado e ainda terá mais poder político e cacife para obter vantagens do governo.

Inteligente e competente política e tecnicamente, pode até fazer uma boa gestão. Sabe, por exemplo, que a imagem da Câmara é péssima perante o eleitorado e pode tomar medidas para tentar melhorá-la, como o corte de despesas e redução das mordomias dos distritais e de alguns servidores.

Mas dificilmente conseguirá conter o ânimo fisiológico e demagógico da maioria dos deputados, especialmente dos com quem se comprometer para ser eleito presidente. E, como o escorpião, não irá negar sua natureza.

Não importa a cor do gato

Ao apoiar Agaciel Maia, Rollemberg coloca o pragmatismo político acima de princípios que defendia e com os quais se comprometeu, entre os quais o de adotar novos métodos e novas práticas na política e no governo. Desde o início da gestão, Agaciel tem colaborado e ajudado na aprovação de medidas importantes para o governo.

Rollemberg, que tem apenas um ano e meio para mostrar resultados expressivos para a população, precisa do apoio do presidente da Câmara – o que não teve de Celina Leão, que no início do governo fazia jogo duplo, sendo aliada e oposição ao mesmo tempo, e depois rompeu de vez com quem possibilitou sua eleição.

O governador confia mais em Agaciel, que é do PR (partido que faz oposição) do que em Joe Valle, o candidato do bloco que reúne o PDT, a Rede e o PV e que, em tese, são da base do governo.

Próximos, mas bem distantes

As relações entre Rollemberg e Joe Valle nunca foram boas e a cordialidade entre eles é apenas para manter as aparências. Em 2014, Valle queria a presidência da Câmara, mas o governador eleito preferiu apoiar Celina Leão. As desavenças não impediram que Valle patrocinasse nomeações na área de agricultura e recebesse a secretaria de desenvolvimento social, à qual haviam sido juntadas diversas outras. E que, deixando a secretaria, conseguisse indicar um assessor como secretário.

Rollemberg acha que Valle não garantirá apoio ao governo e ainda poderá usar a presidência da Câmara para se colocar melhor para a eleição de governador em 2018. Valle poderia ser o candidato da esquerda, ou de parte dela, sustentando em Brasília a candidatura de Ciro Gomes à presidência da República.

Não aprenderam

O PT, com três distritais, anunciou apoio a Agaciel Maia em troca de ter a vice-presidência da mesa diretora. E ainda pensa em se recuperar perante os eleitores e se compor com a esquerda para 2018.

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