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Coluna D

Pessoas cagonas me dão medo

Diana Leiko

No dia 18 de novembro fui assistir a uma peça de teatro no CCBB Brasília (e estou desde então tentando colocar aqui minhas impressões sobre um tema que já rondava meus pensamentos há bastante tempo). Não li nada sobre – arrisquei. Fui de coração aberto. No caminho, enquanto eu dirigia, meu marido leu a crítica de um veículo de comunicação, prenúncio do que eu iria me deparar daí a trinta minutos: “fala do medo que as pessoas têm de se entregar num relacionamento”.

“Uma relação pornográfica”, texto do iraniano Philippe Blasband e direção de Victor Garcia Peralta, traz dois personagens, um homem e uma mulher – que se encontram num site de relacionamento – e, no mundo real, “o tiro sai pela culatra”. Quem nunca? Risos.

Resumidamente, os personagens – interpretados por Angela Vieira e Guilherme Leme Garcia – formam este casal que busca realizar suas fantasias sexuais. Porém se envolvem emocionalmente, chegam inclusive à conclusão de que se amam e, por medo de se doarem, decidem interromper os encontros que se tornaram rotineiros, sempre às quintas, no mesmo horário e locais (cafeteria e depois, hotel).

Prestei atenção no texto, na interpretação e, sobretudo, nas várias mensagens embaladas ao som de Modern Love, do David Bowie, e Lullaby, do The Cure. Essa experiência foi o que eu precisava para ir adiante com esse texto que, há pelo menos 10 meses, venho me preparando para escrever. Como meu espaço aqui tem que ter um link com o mundo digital, meu gancho será os aplicativos de relacionamento.

Amor líquido – A peça me trouxe várias referências literárias. Lembrei-me de Zygmunt Bauman e todo seu discurso sobre a “modernidade líquida”: um mundo repleto de sinais confusos, propenso a mudar com rapidez e de forma imprevisível.

“Vivemos em tempos líquidos. Nada foi feito para durar”. Essa é uma das frases mais famosas do sociólogo polonês, falecido em janeiro de 2017, aos 91 anos. Na sociedade contemporânea, emergem o individualismo, a fluidez e a efemeridade das relações.

“Nas relações humanas líquidas tentamos a todo instante classificar o inclassificável: a existência. E nos frustramos. Ao classificarmos, deparamos com aquilo que não desejamos no próximo, nos frustramos com qualquer coisa que já vivenciamos e que não gostaríamos que aquilo voltasse, ou seja, vivemos em uma vida fora do instante, do agora”.

“As frustrações e classificações criam relações rápidas, de pouca duração, à medida em que somos frustrados pelo relacionamento anterior e desejamos encontrar o que buscamos no próximo. Jamais encontramos, sempre nos frustramos com a angústia proveniente da nossa liberdade de escolha”.

Aí me lembro de um texto enviado pelo João Rafael Torres um dia antes da peça, psicoterapeuta que me acompanhou por um determinado momento da minha vida, que dizia que “adultecer virou um problema. Perceber o peso de cada escolha, parar de atribuir ao outro a responsabilidade de condenação ou salvação, aprender o valor do cuidado responsável. Direitos e deveres. O que gostaria e o que devo fazer. O cotidiano, muitas vezes amargo, o qual precisamos aprender a tolerar”.

Tudo isso para dizer que viramos uma multidão de medrosos, incapaz de lidar com frustrações, que evita o sofrimento a qualquer custo e vive uma vida hedonista na tentativa quase desesperada de preencher nossos vazios.

Quem não se envolve, não se desenvolve. Se envolver é, sim, se frustrar algumas vezes, correr um risco grande de se decepcionar, mas E DAÍ? Amadurecer não é isso? Não estou aqui fazendo apologia ao sofrimento, a gente não cresce apenas nessa condição, mas se esquivar de envolvimentos emocionais para não sofrer é morrer em vida. É, no mínimo, não crescer. Veja o tanto de homem com mais de 40 anos na cara, altamente sequelados, que se acham os garanhões e completamente imaturos emocionalmente?

Na boa? Tenho vários medos, mas meu medo maior mesmo é de lidar com pessoas cagonas. Dessas que a gente vê em aplicativos de relacionamento, dessas que eu já vi várias amigas me relatando que não cresceram emocionalmente, que são incapazes de se colocar no lugar do outro, dessas que deixam a mulher recém-parida em casa e vai para o bar procurar preencher seu vazio na bebida ou no sexo descompromissado. Dessas que não sabem o que é responsabilidade afetiva. Dessas que têm vários parceiros ou várias parceiras sexuais que, no final das contas, não representam nada. Dessas que são completamente ocas.

O Tinder reflete a carência de uma população que se sente constantemente só, apesar de ter tantos amigos e amantes virtuais e ocasionais. Há dificuldade em se relacionar, ao mesmo tempo que necessidade constante. Aquele que busca apenas sexo, não está negando relações, mas demonstrando carência sexual. O que vai atrás do amor, idealiza-o a tal ponto de se apaixonar por uma foto ruim tirada de uma câmera de celular (que catástrofe!).

Apesar de o amor não ter regras, e muitos matchs terem se tornado algo além do aplicativo, o Tinder cria a sensação de afastamento constante de si mesmo, e é dessa maneira que a maioria das pessoas o utiliza. Torna-se distração de cada um para se afastar de seus próprios fantasmas no quarto vazio antes de dormir. É a ilusão de estar sempre acompanhado por desconhecidos.

Viver uma vida solitária enfraquece a solidariedade e estimula a insensibilidade em relação ao sofrimento do outro. Basta ler jornais, assistir ao noticiário e acompanhar esse tiroteio político nas redes sociais para entender o quanto nosso mundo está doente. Basta observar a quantidade de farmácias que são abertas por ano nas quadras comerciais do Plano Piloto.

Esse tipo de isolamento parece ser uma contradição da globalização, que aproxima as pessoas com a tecnologia e novas formas de “relacionamento”, ao mesmo tempo em que as torna mais solitárias. Que mundo é esse em que as pessoas têm medo das outras? Tem medo de dizer eu te amo, de dizer que está com saudade, de simplesmente manifestar o que está sentindo sem se preocupar com a reação do outro? Eu, hein? Mais um sintoma do quanto nosso mundo está mesmo doente: quando é para proferir palavras altamente cortantes e absolutamente devastadoras, no calor das emoções, ninguém pensa duas vezes.

Desejo de status

O livro “Desejo de status”, do Alain de Button, é outra referência que me veio à cabeça com essa peça. Porque fala sobre a falta de amor e o que somos capazes de fazer para sermos amados. Aí vem aquela enxurrada de gente feliz nas redes sociais, ostentando suas viagens, seus casamentos falidos e de aparência, suas vidas de sucesso e extremamente fakes em troca de likes que geram dopamina e – mais do que isso – massageiam o ego.  Tudo tão falso…

A falta de amor, segundo Botton, está profundamente ligada ao desejo de status. Somos seres morais e sentimentais em busca de amor, de forma que nosso desejo é intensamente ligado a esse grito desesperado pelo amor total e absoluto, que a gente busca através de bens materiais. Ser bem-sucedido, ter corpão, viajar para fora, sustentar uma vida de futilidades nada mais é do que um desejo desesperado de ser aceito – e amado. Tudo isso é tão deprimente… Mas terminando esse texto, vou acordar desse pesadelo, abrir meus olhos e a primeira pessoa que verei é quem eu sei que me ama verdadeiramente. Pode não ser a relação perfeita, mas é real.

Para escrever este texto, Arcade Fire – Song on the Beach; Photograph. Trilha de “Her”.

Inspiração: “The king of the jailhouse and the queen of the road think sharing the burden will lighten the load” – King of the Jailhouse; Aimee Mann.

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