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Coluna D

O simples é complexo

Olá, gente! Tem tempo que não apareço por aqui. Saí de férias, a vida começou a complicar e o tempo para escrever ficou escasso. Já escrevi aqui em algum momento e disse que não escrevo neste espaço por escrever. Escrevo com sentimento e só se eu realmente tiver algo a acrescentar na vida de quem está lendo meus textos. Pode soar pretensioso da minha parte? Pode. E pode ser também que eu não consiga tocar meu leitor, mas me esforço.

Neste meu retorno, que espero que seja cada vez mais constante, já que até outubro não pretendo gravar nenhum programa para o canal do Jornal de Brasília no YouTube (porque estou em pré-campanha e, muito em breve, em campanha eleitoral), resolvi falar sobre algo que vivencio frequentemente: a dificuldade que clientes ou colegas de trabalho têm no entendimento do que nós, profissionais da comunicação, fazemos.

A comunicação, ao mesmo tempo em que é muito importante para que empresa/instituição se comunique com seus stakeholders e faça chegar até eles as informações certas, com precisão cirúrgica, é também o patinho feio. É a primeira a ser cortada do orçamento quando as contas desequilibram. O que é uma grande contradição, não é mesmo? Como algo que é tão importante é eliminado no primeiro sinal de uma crise na empresa?

Depois de 17 anos no mercado, ainda me vejo em situações em que o cliente quer saber mais do que eu (sem a menor pretensão de que isso soe arrogante, mas estudei e ainda estudo muito minha área, principalmente depois que migrei para o digital). Veja bem, se não sei curar as pessoas, não vou me meter a ser médica. Não saio por aí indicando remédio para causas as quais desconheço simplesmente porque acho que pode ajudar. Não me meto a fazer nada em área que não é minha. Se sou atacante, não vou jogar na posição de zagueiro, nem de meio campo ou lateral. Então, pergunto, por que na comunicação tem que ser diferente?

Acredito, sim, que as áreas todas de um organismo vivo que é uma empresa podem se ajudar. Sou defensora da comunicação integrada; se não sei ouvir todos os setores, todas as demandas, todas as opiniões, não sirvo para ser repórter, assessora de imprensa, social media, seja qual cargo eu exercer enquanto jornalista. Mas isso não dá o direito do seu cliente passar por cima do seu trabalho e vender a pauta para um veículo (como já vi acontecer). Agora, falo como assessora de imprensa que sou desde 2001.

Já vi de tudo e dava para escrever um livro: cliente que enfiava post nas redes sociais sem o menor planejamento, um atrás do outro, sem respeitar a característica de cada canal nem melhor horário de postagem, menos ainda o tempo entre um post e outro e o mais grave – sem considerar que existe um profissional com entendimento para cuidar dessa parte.

Outra parte nada legal: as novas tecnologias ajudaram muito na comunicação, mas tudo tem dois lados. WhatsApp, por exemplo, é ótimo para se comunicar de forma rápida e barata. Mas tem uma série de limitações e duvido que nenhum dos meus leitores não tenha passado apuro, em algum momento, por conta de uma interpretação equivocada sobre algum comentário nesta rede (para não dizer várias outras situações que a gente já passou antes do WhatsApp criar o botão apagar, né?).

Horário para te acionar? Não existe. Eu mesma um dia desses me vi fazendo o que condeno: cliente enviando mensagens fora do horário de trabalho sem necessidade. Amigos? Bom, se tenho intimidade falo em qualquer horário. Mas, recentemente, passava das 23h quando me dei conta que acionei uma pessoa, com a qual não tenho intimidade, para perguntar sobre um curso na UnB. Então, se você estiver lendo meu texto, deixo aqui meu pedido de desculpas.

Ah, o engajamento da página no Facebook este ano caiu! Disse meu cliente. Sim, caiu porque o algoritmo do Facebook mudou. Essa mudança já aconteceu há alguns meses e foi amplamente anunciada. Não foi porque a estratégia não deu certo. Ok, o cliente tem o direito de questionar. E todas as vezes em que isso acontecer, vou responder tranquilamente (afinal, ele não é da minha área e não tem obrigação de saber). O que coloco aqui neste desabafo é que se algo não dá certo, a culpa será sempre da comunicação. E não é bem assim que funciona. Para algo não ter dado certo, ou não ter dado o resultado esperado, comparado aos anos anteriores, existem “n” variáveis que precisamos avaliar.

“Ah, eu esperava um clipping mais robusto”. Sim, eu também queria muito entregar ao meu cliente uma bíblia, se muitos veículos não tivessem fechado as portas, se a imprensa não priorizasse anunciantes na guerra para conseguir um espaço no jornal, se as redações tivessem gente suficiente para produzir conteúdo de qualidade (e quem é da área sabe que estagiários dominam as redações. Nada contra, já fui estagiária um dia. Mas não dá para exigir dele o mesmo rigor que um repórter especial, concorda? Estagiário está ali para aprender, na prática, o que é ser jornalista).

Outro dia, a reclamação foi por que a matéria foi escrita por estagiário e a foto utilizada foi outra, não a da divulgação oficial. Senta aqui agora que eu vou te explicar uma coisa: assessor de imprensa não é santo milagreiro. Não tenho como ligar na redação e dar a ordem: olha, não quero que a matéria seja escrita por estagiário e quero essa foto aqui na publicação. Já em redes sociais, errar faz parte da estratégia. Ali é tentativa e erro. Se der errado, vamos para tal caminho. E assim vamos testando até conseguir chegar na estratégia que dá melhor resultado.

Comunicação não é como uma roupa que você vê na vitrine, se apaixona perdidamente, entra na loja e sai com o produto na mão. É intangível e o resultado você só vê depois de um tempo. E como ela está em absolutamente tudo na vida e em todos os departamentos de uma empresa ou instituição, muitas pessoas se julgam capazes de intervir (o que é mais grave) ou opinar.

Sugestões serão sempre bem-vindas e, muitas vezes, são muito importantes para um bom resultado (a comunicação integrada que falei lá em cima). Não sou, não somos os sabichões, também erramos. Mas questiono, sim, que sendo a comunicação tão importante, os profissionais que trabalham com ela sejam tão desvalorizados. E todo mundo se sinta tão à vontade para dar sugestões mirabolantes como se nós não soubéssemos o que estamos fazendo.

Não tem nenhum glamour. É ralação noite e dia, dia e noite. E quando se trabalha com redes sociais, como é o meu caso, não tem dia nem horário. Passo boa parte do meu tempo lidando com desaforo nas redes sociais, fazendo terapia quando tenho a chance de responder, moderando conteúdo, filtrando o que é lixo e o que não é. Haja estrutura emocional! A sensação que tenho é de estar com um cabo conectado na minha cabeça como o Neo, no filme Matrix. Se estou acordada, estou conectada a um ponto que já não sei qual é minha vida real. Se a virtual ou aqui do lado de fora.

Hoje não foi um texto bonito. Foi um texto humano, que mostra o outro lado do balcão. Assim como eu, muitos outros profissionais passam pelas mesmas situações. Fazer o que a gente faz pode parecer muito simples, mas exige precisão cirúrgica, em muitos casos, pensamento estratégico, visão global e um baita entendimento do cenário para não errar. Ah, e rapidez na tomada de decisões tão importantes que podem enterrar de vez a carreira do seu assessorado, com impacto, claro, na vida particular.

Por fim, deixo uma provocação. Que tal fazer o exercício de tentar enxergar além das aparências? Por detrás de algo tão trivial e simples aos olhos de muitos, há uma grande complexidade. Cito o artista espanhol Pablo Picasso, quando desenhou a pomba que se tornou o símbolo do Congresso Mundial da Paz, de Paris, em 1949. Quem olha o desenho pode ter a certeza que ele foi criado com tamanha facilidade. Mas até Picasso chegar na simplificação dessa forma tão repleta de significado, ele teve que percorrer um longo caminho de estudo e dedicação, ou seja, levou tempo, disciplina e muito empenho para fazer coisas simples (aos olhos da maioria). 

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