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Coluna D

Aos meus pais, com amor

Inspirada pelo Dia dos Pais, que se aproxima, hoje peço licença aos meus leitores para falar sobre educação (não desista do texto, lá embaixo você vai entender o link da data comemorativa com o tema que escolhi). Optei por falar sobre isso porque é algo essencial em nossas vidas (e em se tratando de marketing digital, é fundamental, já que profissionais dessa área precisam se atualizar constantemente). Sei que o tema é bastante amplo, mas vou tentar dar um recorte e meu recado. Hoje, no entanto, não será nas áreas afins da comunicação, embora educação esteja em tudo.

Recentemente fui entrevistada para a seleção do Programa de Convite ao Japão para Descendentes de Japoneses da América Latina e Caribe. Minha segunda vez, em quatro tentativas. Cito este exemplo porque nas quatro vezes em que concorri, a Embaixada do Japão pediu aos candidatos que escrevessem uma redação.

Em todas, defendi meu interesse, sobretudo, em difundir os valores japoneses que estão ligados diretamente à educação nipônica (senso de coletividade, respeito aos mais velhos, ao meio ambiente etc). Talvez pareça algo banal, mas desenvolvo trabalho em uma comunidade extremamente carente, na Expansão da Samambaia, portanto posso dizer que educação faz toda diferença na vida de uma pessoa. Ali, sequer existe a consciência do que significa jogar lixo no chão. Algo que para mim, que tive acesso a um ensino de qualidade, é condenável. Minha defesa, então, é óbvia: qual país se tornou uma potência hoje sem investimento em educação no passado e no presente? Nenhum!

Ainda utilizando o Japão como exemplo, recentemente li uma notícia que dizia que a criminalidade por lá vem caindo sucessivamente e tem sido a menor desde que a Guerra acabou em 1945. Por outro lado, a conta do aumento da criminalidade no Brasil nos últimos vinte anos é alta: o país perdeu mais de R$ 450 bilhões em capacidade produtiva de 1996 a 2015, segundo estudo lançado em junho deste ano pelo governo federal. Intitulado “Custos econômicos da criminalidade no Brasil”, o documento apresenta dados do impacto socioeconômico do crime, cujo dado mais recente mostra que a violência consome cerca de 4% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.

O antropólogo, escritor e político Darcy Ribeiro – uma das figuras mais importantes da história contemporânea brasileira – disse, em 1982, o seguinte: “Se os governadores não construírem escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios”. Então, respondo agora – provavelmente com mais clareza, já que o nervosismo não permitiu expressar-me tão bem, ainda mais em inglês – a um dos entrevistados que quis saber o que mais me despertava interesse no Japão e respondi: educação. Ele quis saber mais detalhes, porque soava abstrato.

Explico. De todas as decisões na nossa vida, poucas têm tanto impacto como as que dizem respeito à educação. O grau de escolaridade e a qualidade da formação definem, cada vez mais, o papel que cada um de nós ocupa na sociedade. Aqueles que cursaram boas escolas ou faculdades e estudaram por mais tempo encontram emprego mais fácil e são melhor remunerados.

Os que não tiveram acesso à educação de qualidade, não têm a mesma chance dos que tiveram. Sem oportunidade, muitos acabam entrando no mundo da criminalidade. Para se ter uma ideia, pesquisa realizada no Rio Grande do Sul, no ano passado, concluiu que a “violência extrema” caracterizada pelo ato de matar ou ferir, mesmo quando não há reação da vítima, tem sido praticada na grande maioria das vezes por jovens que abandonaram os estudos entre os 11 e 12 anos.  Por isso a frase de Darcy Ribeiro de 36 anos atrás é tão atual (enquanto escrevo este texto, escuto matéria no Jornal Nacional sobre o aumento de casos de feminicídio).

Já o Japão, de acordo com dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), é o país com o maior nível de igualdade na educação, quando comparado a outros países com índices de desenvolvimento similar. Lá, a grande maioria dos estudantes das classes sociais mais baixas tem acesso à educação de qualidade equivalente àqueles de classes sociais mais altas. O resultado é o baixo índice de criminalidade que mencionei lá em cima.

Os japoneses investem em tecnologia de ponta, porque entenderam que a educação é um dos principais pilares da economia. Isso porque indivíduos com acesso à educação proporcionam as melhores ideias, promovendo inovação tecnológica. Dessa forma, o incentivo a criatividade humana se torna o instrumento mais influente na economia.

É óbvio demais tudo isso, não é mesmo? E olha que coloquei apenas alguns exemplos de como a educação é importante para o crescimento de uma nação. O motivo de até hoje o Brasil não ter investido nessa área tem explicação, mas não será desta vez que vou levantar esse debate. Hoje, meu objetivo mesmo era explicar um pouco sobre o porquê de eu defender essa bandeira.

Antes de finalizar, dedico esse texto ao meu pai, Milton Hirumitu Miura, por ter criado coragem e pedido emprego ao diplomata japonês Ishida Yoshisaburo, cliente dele na extinta Torre Veículos, onde meu pai era chefe de oficina. À minha mãe, Tiana Miura, que insistiu que meu pai continuasse firme todas as vezes em que ele voltava para casa desanimado pelas dificuldades de não ter o conhecimento necessário para trabalhar na tesouraria da Embaixada do Japão, onde foi funcionário de 1977 a 1985. Ele venceu suas limitações e, a partir disso, meus pais conseguiram garantir nossos estudos nas melhores escolas de Brasília. Hoje somos bem-sucedidos.

Também tive exemplos muito próximos para me inspirar. Minha mãe é professora aposentada, tenho muitos parentes do lado materno que também se dedicaram à arte de ensinar. Meu tio Takeshi Miura é sensei de judô. Atualmente, uma das atividades que exerço e que seguramente me realiza é ensinar o que sei em treinamentos na área de marketing digital, sobretudo em criação de conteúdo. Atividade, aliás, a qual levo muito a sério. A cada treinamento que preciso montar, me debruço sobre o tema, pois respeito o tempo daqueles que vão dedicar horas para me ouvir.

Lamento profundamente que o ensino de qualidade ainda esteja restrito a uma pequenina parcela da população brasileira que pode pagar para garantir seu direito de vislumbrar um futuro de oportunidades. Quem sabe um dia aprendamos a dar à educação o mesmo valor que o Japão deu. Quando isso acontecer, nos tornaremos uma nação desenvolvida socioeconomicamente, intelectualmente e moralmente.

*Este texto também é dedicado aos meus ancestrais, sem os quais minha história não existiria.

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