Relação de amor e ódio com os anos 80; confira entrevista exclusiva com Lobão

John Stan

Larissa Galli
cultura@jornaldebrasilia.com.br

Estreando na coleção dos guias politicamente incorretos da editora LeYa, Lobão escreveu sobre os anos 1980 pelo viés do rock brasileiro. Nas quase 500 páginas, o polêmico roqueiro esmiuça a sua própria produção e a de companheiros de geração. Destaque para os ataques do músico à MPB, especialmente direcionados aos medalhões Chico Buarque, Caetano Veloso e cia. Lobão esteve em Brasília para o lançamento de O Guia Politicamente Incorreto dos Anos 80 no Rock. Em entrevista exclusiva ao JBr., ele fala os traumas que viveu naquela época, das prisões à pressão das gravadoras, comenta o rock nacional de hoje em dia e dá seus pitacos na política. E adianta o lançamento de um novo guia, desta vez sobre a MPB e a Tropicália.

Como surgiu a ideia do guia?

Foi uma proposta que eu recebi da Leila, uma amiga minha, editora da Leya. No ano passado ela sugeriu e eu fiquei meio na dúvida, mas achei que poderia ser uma boa ideia escrever o livro.

O que te fez ficar receoso?

Eu detesto os anos 80. Foi a época em que fui mais infeliz na minha vida. Detesto os meus discos desse período e odeio os anos 80. Então eu pensei ‘vou detonar os anos 80’. Foi engraçado porque acabei escrevendo com esse intuito, mas depois que comecei, fui fazendo as resenhas e percebi que nunca tinha ouvido um disco da década de 1980. Achei coisas interessantes. Eu vi que tinha razão em achar que os discos desse período são realmente mal gravados e a maioria muito mal tocados também. Mas as canções e as letras são muito boas e fiquei encantado com essa produção. Eu cheguei a conclusão que esse período curto dos anos 80 foi o mais pródigo em músicas excelentes para o cancioneiro popular brasileiro, foi quando se escreveu a melhor qualidade e maior quantidade de música do País.

Como se desenvolve a história?

A trama se desenrola em tentar explicar como, diante todas essas adversidades que mencionei, de tanta precariedade, tanta má vontade e sabotagem explícita, se conseguiu, em um curto período de tempo, produzir tanta música boa e fora da tutela do que eu considero o totalitarismo cultural brasileiro, que é a MPB nascida nos anos 1960 e seus coronéis que tomam conta da música até hoje.

E você continua odiando os anos 80 depois disso?
Eu continuo odiando os anos 80 porque eu sofri muito. Eu fui perseguido, fui preso centenas de vezes pela polícia por ser apenas um ‘mal social’ sem nenhuma causa. Havia mandado de busca e apreensão livre para mim. Eu era preso em qualquer lugar e isso durou entre quatro e cinco anos. Eu tive perdas familiares e de grandes amigos, como Cazuza, então não tenho boas recordações dessa década. Fora a frustração de fazer disco após disco com repertório razoável mas sem conseguir produzir algo decente.

Mas reconhece que coisas importantes aconteceram…

Eu tive carinho por tudo isso, inclusive essa tensão de aversão mediante toda a precariedade só valorizou todo o reconhecimento de uma obra que existiu apesar de todo esse pesadelo. Isso que eu acho interessante. Todo os músicos tiveram problemas sérios. Ritchie, por exemplo, teve que sair das gravadoras. Os caras tratavam a gente como se nossa música fosse descartável. Aumentamos em 80% o volume econômico das gravadoras e recebíamos um budget irrisório para fazer discos. Os orçamentos dos discos eram mínimos. Tudo isso torna esse período mais valoroso.

O que a pesquisa para escrever o livro te proporcionou?

Além da saudade dos meus amigos, pude reconhecer nos meus adversários (ou desafetos) valores que eu não via. E conhecer melhor bandas que eu tinha um preconceito como Engenheiros do Hawaii – que eu sempre achei uma porcaria. Até que eles fizeram coisas legais. Isso me levou a fazer um complemento desse livro. Agora, estou gravando um vinil duplo sobre isso e fazendo o exercício de mergulhar de cabeça nesse período, apesar da minha aversão.

Tem algo que você não colocou na obra?
Eu tenho que salientar um fato: o Guia Politicamente Incorreto da MPB/ Tropicália vai sair ano que vem.

Como você vê o cenário do rock nacional hoje?

O rock nacional nunca existiu. Ele teve um breve período de eclosão nos anos 80 e uma pré-existência underground nos anos 70. E só. Na década de 1980, o rock já estava cooptado pela ‘inteliguência’. Chico Science já gravava Gilberto Gil. As pessoas puxavam o saco das mesmas pessoas. Isso eu já não considero como uma coisa independente, porque o rock precisa de um altivez de dizer ‘foda-se o mundo, eu sou eu’. Beijar a mão de Caetano para poder existir eu não considero uma coisa digna para fazer rock. Isso anula a condição transgressora do rock. É preciso ter um mínimo de independência intelectual, cultural e criativa. Depois dos anos 80, nem se fala. Foi só piorando até chegar nos dias de hoje. O punk de hoje é chapa branca, filiado ao PT.

A sua música é rock?

Eu faço rock da melhor qualidade. Eu estou fazendo a melhor música que já fiz. No último disco () eu gravei todos os instrumentos, toquei todas as músicas, compus tudo. Eu fui me gabaritando ao longo dos anos justamente por causa do trauma da década 1980. Eu estudei vários instrumentos, literatura, engenharia eletrônica e de som para poder chegar onde eu estou agora.

Serviço

Guia Politicamente Incorreto dos Anos 80 pelo Rock
Autor:Lobão
Editora: Leya
Páginas: 496
Preço médio: R$ 59,90

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