Quase 20 mil pessoas vivem na incerteza sobre suas casas

Na chácara Santa Luzia, os problemas estão dentro e fora das casas, construídas de forma precária. Foto: Breno Esaki

Jéssica Antunes
jessica.antunes@grupojbr.com

O perigo é evidente, e o motivo, também. As áreas de risco do Distrito Federal estão em locais de população vulnerável, que ocupou o solo de forma irregular e desordenada. Em 2013, havia 2.051 residências mapeadas em regiões de risco. Quatro anos depois, com aumento das invasões, o número mais que dobrou e são 4.733 unidades, onde vivem 19 mil moradores, em 36 áreas divididas em 18 regiões administrativas. O governo trabalha para minimizar problemas e evitar o crescimento das regiões.

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Em quatro anos, com aumento das invasões, o número mais que dobrou e são 4.733 residências

“Os riscos incluem desabamento, inundação, escorregamento incêndio, eletrocussão. Jesus Cristo perdoa, o padre perdoa, mas a natureza não perdoa. Lugar de edificação não é próximo a rios. Não dá para ir contra a natureza, mas é possível a convivência com os problemas”, afirma Sérgio Bezerra, subsecretário de Proteção e Defesa Civil, vinculado à Secretaria de Segurança Pública.

Mais gente encarando os problemas

  • Há quatro anos, o Jornal de Brasília visitou cinco das 36 áreas de risco no Distrito Federal mapeadas. Na época, havia 2.353 residências em perigo: os locais mais vulneráveis eram os condomínios Pôr do Sol e Sol Nascente, Vilas Rabelo I e II, Fercal, Vicente Pires e Arniqueiras. Em 2014, o número de casas em risco havia crescido em 302 unidades.

Até 2019, todo o território do Distrito Federal deve ser remapeado. Em comparação ao ano passado, a situação é praticamente idêntica: eram 36 áreas de risco em 18 regiões administrativas. Desta vez, porém, é menor o número de residências em perigo: caiu de 4.762 para 4.733. As medidas para diminuir os riscos são divididas em estruturais, com investimentos em obras de infraestrutura e habitação; e não estruturais, como limpeza de bocas de lobo. Para Bezerra, o GDF tem cumprido as diretrizes e “garantido a vida”.

Mesmos focos

Estão entre as regiões mais vulneráveis o Sol Nascente, em Ceilândia; Porto Rico, em Santa Maria; Vila Cauhy, no Núcleo Bandeirante; Arniqueiras, em Águas Claras; Fercal e Vicente Pires. No entanto, está no topo do ranking de riscos o amontoado de barracos em uma das áreas mais pobres da capital.

Santa Luzia, na Cidade Estrutural, é ocupação antiga, datada dos anos 1990, e vizinha do Parque Nacional de Brasília. A maioria das construções é de madeira, não tem água ou esgoto encanados e a iluminação é improvisada, roubada, puxada. Sem projetos de infraestrutura, mais de 13 mil moradores de baixíssima renda vivem ali, a 17 quilômetros do centro político do País.

Sérgio Bezerra diz que as maiores preocupações são oriundas das chuvas. Ali, como em todo o DF, os riscos são monitorados pela pasta. “Desastre acontece em todos os lugares. Aonde tiver ocupação humana pode ter danos. A população tem que estar ciente dos riscos”, acredita.

Onde os transtornos são menores

Além das áreas de risco, as áreas de vulnerabilidade no DF podem acarretar perigo. São como as tesourinhas, que inundam com qualquer chuva mais forte. Segundo Sérgio Bezerra, a diferença entre “risco” e “vulnerabilidade” está no grau de dificuldade de recuperação do local após um desastre natural.

Os alagamentos sobre as tesourinhas, por exemplo, escoam em cerca de 15 minutos.

Vizinhança se vira como pode

“Eu tenho muito medo”, admite Gediana Santos, baiana de 40 anos. A última chuva levou lama para dentro de casa na Quadra 21 da Rua da Paz, no coração da chácara Santa Luzia, na Estrutural. Ela sabe que o local é irregular. “Se eu pudesse, não estava aqui. O alagamento não é simplesmente de água, tem lama, tem sujeira do Lixão, tem tudo. A gente corre risco de a casa desabar, de deslizar e até de pegar doença”, reclama.

Ela e os vizinhos resolveram criar uma contenção na base do portão, para evitar a entrada indesejável da correnteza, ainda que dificulte sair com o filho cadeirante, de nove anos. Lúcio ficou uma semana sem ir à escola. “Era muita chuva e a lama não deixava empurrar a cadeira de rodas”, conta.

Maria Sales, 42 anos, também não encobre o temor. “Quando chove, me escondo em um canto do quarto com medo, com minhas netas”, revela. O barraco de alvenaria com dois cômodos não tem telha em toda a construção. “A água entra na casa inteira, é um desespero. Tenho medo de tudo cair”, confessa.

Bruna Pinheiro, diretora-presidente da Agência de Fiscalização (Agefis), diz que as tentativas de retirar os moradores da área foram em vão. Agora, a estratégia é construir um prédio de moradia coletiva. “São famílias carentes. Não dá para simplesmente tirá-los, ‘tchau e vai embora’. A intenção é que as famílias sejam mantidas no local. Hoje, trabalhamos para impedir o crescimento da ocupação irregular”, afirma.

Saiba mais

  • Os riscos diminuem com infraestrutura. Segundo Sérgio Bezerra, canalização do sistema de drenagem de água da chuva e sistema de esgoto reduzem as chances de desastre, já que assim a correnteza perde força de destruição.
  • Desta forma, quando forem concluídas as obras no Sol Nascente e em Vicente Pires, a tendência é que as regiões deixem de ser consideradas áreas de risco, pois a infraestrutura básica estará garantida.
  • Há formas de minimizar os problemas das áreas de risco, como limpar o terreno e as calhas, não jogar lixo nas ruas e chamar a Defesa Civil para avaliar a estrutura da residência em casos de rachaduras.

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