Oito estados e o DF investigam tentativas de suicídio supostamente motivadas pelo Baleia Azul

Polícia Civil apura a primeira denúncia em Brasília: uma ameaça de morte a uma adolescente que abandonou o grupo no Facebook que impunha as missões. Foto: Breno Esaki

Jéssica Antunes
jessica.antunes@jornaldebrasilia.com.br

O desafio mortal da Baleia Azul, que leva jovens a se mutilar e a cometer suicídio, se expande pelo Brasil. Pelo menos oito estados e o Distrito Federal já iniciaram investigações do envolvimento de moradores na incitação virtual que tem, como tarefa derradeira, tirar a própria vida. Na capital da República, a Polícia Civil apura a primeira denúncia: uma ameaça a uma adolescente que abandonou um grupo no Facebook que impunha as missões.

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“Você vai se arrepender e morrerá de qualquer jeito”, teria dito o administrador do grupo após a garota de 15 anos desistir do desafio. Após ameaças, a mãe da adolescente registrou ocorrência na 35ª Delegacia de Polícia, em Sobradinho II, que apura o caso. Segundo a ocorrência, a jovem chegou a cumprir três tarefas: fazer cortes nas mãos, assistir a filmes e ouvir músicas indicadas pelo grupo. À corporação, a menina não soube dizer o apelido ou qualquer outro dado do desafio.

Escrever frases e fazer desenhos com lâminas na pele é um dos desafios. Foto: Reprodução
Escrever frases e fazer desenhos com lâminas na pele é um dos desafios. Foto: Reprodução

“Os pais estão desesperados e não é um desespero inválido”, afirma Alessandra Araújo, psicóloga especialista em adolescência. De acordo com ela, os chamados “curadores” do desafio da Baleia Azul não buscam qualquer público, mas apenas aqueles com maior vulnerabilidade. “A adolescência é justamente a fase da vida de mais inconstância, de descoberta e época em que há tentativa de aceitação em grupos. É uma fase imediatista, em que não se consegue esperar, raciocinar ou refletir o suficiente pelos atos”, explica a especialista. Nesse universo, lembra, qualquer sentimento é gigante.

Saiba mais

  • O Centro de Valorização da Vida (CVV) presta atendimento por meio do telefone 141. Também é possível entrar em contato via internet, e-mail, chat e Skype 24 horas por dia.
  • No DF, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPs) podem ser procurados presencialmente para ajuda, e o único Núcleo de Saúde Mental (Nusam) do Samu no Brasil, atende no número 192.

Alessandra diz que o uso da tecnologia sem controle dos pais é grande e falta diálogo dentro do contexto familiar. “Tecnologia e polícia falham, mas não se pode responsabilizar apenas isso. Tem que denunciar, cobrar respostas das autoridades e olhar para dentro de casa. Não pode deixar a pessoa entrar no desafio. Deve-se prestar atenção aos sinais”, observa.

A depressão causa vulnerabilidade, mas a psicóloga garante que outros transtornos também podem influenciar o acesso de pessoas a jogos como este, como bipolaridade, síndrome de Borderline e esquizofrenia, que se desenvolvem, geralmente, na adolescência.

De acordo com ela, há um grau de ansiedade elevado quando a criança e o adolescente tentam realizar algo para pertencer a um grupo, o que ocasiona mudança de comportamento. Evitar deixar a pele à mostra, com uso constante de blusa de frio e calça, por exemplo, pode ser sinal de automutilação – um dos 50 desafios da Baleia Azul. A orientação é, em caso de identificação de qualquer alteração no perfil, buscar ajuda de um profissional.

Cuidado nas escolas

A Secretaria de Educação do DF diz que está atenta aos acontecimentos e fortaleceu contato com outros órgãos do governo “para estudar as melhores medidas a serem tomadas”. Por enquanto, atuam os orientadores educacionais, que mantêm diálogo diário com os estudantes em todas as unidades da capital. O objetivo, segundo a pasta, é “esclarecer e orientar os alunos sobre diferentes temas do cotidiano vivido por todos os atores da comunidade escolar”.

Nas unidades privadas, as direções começam a distribuir informativos aos pais. Luís Cláudio Megiorin, presidente da Associação de Pais e Alunos das Instituições de Ensino do DF, diz que a abordagem tem que ser específica. “Sempre há orientação de diminuir a inibição com os filhos e controlar a privacidade deles. A abordagem das escolas, nas salas de aula, tem que ser muito franca e honesta de forma a não levar as crianças a terem curiosidade de participar desse tipo de desafio”, diz ele, que também integra o Conselho de Educação da Ordem dos Advogados do Brasil.

Realidade na juventude

Apesar da pouca idade, os adolescentes sabem o que está acontecendo. Basta perguntar a um grupo de jovens ou ir nos portões das escolas. Ao JBr., uma menina de 11 anos revela que uma colega, da mesma faixa etária, aceitou o desafio de participar do Baleia Azul. “Ela disse que não é tão perigoso. Só mandam um vídeo desafiando”, conta.

Para essa menina, que está no 6º ano do Ensino Fundamental, a pessoa entra nessa história “sabendo que vai ter que se matar” e que, por isso, não arriscaria. Apesar disso, diz ter colegas que praticam automutilação, ainda que fora do jogo. A pré-adolescente destaca que o assunto entrou na pauta da família.

“Meu amigo disse que queria se matar e toparia o desafio, mas eu o fiz prometer que não faria isso”, revela outra menina, de 13 anos. “A vida é tão bela para acabar com ela assim, do nada”, continua. Nas salas de aula do 7º ano, os professores têm abordado o tema, segundo a adolescente.

Funcionária pública Laura Cravo: “Temos que ensinar a filtrar ao máximo”. Foto: Breno Esaki
Funcionária pública Laura Cravo: “Temos que ensinar a filtrar ao máximo”. Foto: Breno Esaki

Preocupados, os pais lotam as redes sociais e as conversas com o assunto. Mãe de uma criança de nove anos e um adolescente de 15, a funcionária pública Laura Cravo, 51, conversa em casa para que convites não sejam aceitos.

“Acho que muitos não entendem o quão real e perigoso é esse desafio, mas o perigo está aí. Não só nesse desafio, mas nas más influências, drogas, tudo. Temos que tentar filtrar e ensinar a filtrar ao máximo”, opina.

Entre dúvidas e (in)certezas

No Brasil, a preocupação com o desafio da Baleia Azul foi reforçada após vários estados registrarem casos de suicídio e mutilações de crianças e adolescentes. Há investigações em andamento em São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Mato Grosso, Pernambuco, Paraíba, Santa Catarina e Rio de Janeiro, além do Distrito Federal. Nesta semana, um jovem cometeu suicídio no Pedregal, no Novo Gama (GO). No entanto, a Polícia Civil do município descarta relação com o jogo.

Identificados, os curadores e incentivadores do desafio podem responder criminalmente. De acordo com a advogada especialista em Direito Penal Cristiane Damasceno, há pelo menos duas naturezas para o crime praticado. Primeiro, induzir ao suicídio, previsto no artigo 122 do Código Penal.

“Tem que ter necessariamente um resultado, morte ou lesão corporal grave, para que respondam por isso. Se a lesão for leve, os autores podem ficar impunes”, explica.

Por outro lado, se o adolescente for menor de 14 anos, a pena pode ser aumentada. “Nessa idade, eles não têm capacidade legal de discernimento e são levados na onda. Nesse caso, autores podem responder como homicídio”, revela.

Além disso, segundo a especialista, “pode ser caso de organização criminosa de pessoas com o mesmo intuito e que esperam alguma vantagem, que ainda não sabemos qual, e crimes transnacionais, que é o que parece ser”.

50 tarefas

Não há unanimidade em relação à origem do jogo. Especula-se que tenha surgido na Rússia em 2015, quando uma jovem de 15 anos cumpriu a última de 50 tarefas e pulou do alto de um edifício.

Autoridades do país começaram uma investigação que ligou os incidentes a um grupo que participava de um desafio com dezenas de missões. No entanto, há a hipótese de que a história tenha iniciado com uma notícia falsa, como teria comprovado a organização não governamental Safernet.

Em tese, o jogo é comandado por um curador que distribui desafios em grupos secretos nas redes sociais. Na internet, os jogadores devem mostrar que fizeram as atividades para que, então, o moderador aprove a participação dos jovens na próxima fase. Uma vez que decidam entrar, os participantes não podem desistir, ou podem sofrer pressões e ameaças.

Escrever frases e fazer desenhos com lâminas na pele, assistir a filmes de terror durante toda a madrugada, subir no alto de um telhado ou edifício, escutar músicas depressivas, receber e aceitar uma data para a sua morte são alguns dos desafios impostos. O quinquagésimo e último é cometer suicídio.

Legislativo se manifesta

A Câmara Legislativa do DF (CLDF) entrou na discussão sobre o jogo Baleia Azul, mas não passou disso. Integrante da Frente Parlamentar de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente, o deputado Rodrigo Delmasso (Podemos) garantiu que enviará ofício à Polícia Federal e à Polícia Civil para cobrar investigação. Ele também apontou necessidade de alertar os pais e disse acreditar que não só depressão, mas solidão também pode causar a entrada no desafio.

Mais efetiva, a Câmara dos Deputados deve fazer uma audiência pública sobre o tema. Nesta semana, a Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática aprovou o requerimento do deputado Sandro Alex (PSD-PR). Ainda sem data marcada, o parlamentar espera que representantes do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), do Facebook (que também é dono do WhatsApp) e da Polícia Federal participem do ato.

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