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Em 2019, arrisque-se! JBr conta histórias de sucesso de empreendedores

Jéssica Antunes e Rafaella Panceri
redacao@grupojbr.com

O sucesso é possível. Difícil, penoso, mas possível. Em um cenário de mais de 308 mil desempregados no Distrito Federal e de uma troca completa de governos, empreender é opção que provoca frio na barriga. Para começar 2019 cheio de inspiração, o Jornal de Brasília reúne quatro histórias de pessoas que arriscaram, deram a cara à tapa e estão conquistando a capital e o Brasil – mas com planos de abraçar o mundo.

Thaíza Francischini começou um negócio no ramo de calçados com um cartão de crédito com R$ 2 mil de limite. Dezesseis anos atrás, a jovem estudante de administração e pedagogia vendia sapatos expostos no porta-malas de um carro na Esplanada dos Ministérios. Hoje, aos 35 anos, ela tem quase 200 mil seguidores nas redes sociais e seis lojas nas asas Norte e Sul, Águas Claras, Valparaíso e até em Goiânia, onde inaugurou recentemente.

A história de sucesso da brasiliense tem altos, baixos, ameaças de desistência, roubo de cargas e vontade de vencer. Por muitos anos, o lucro beirava o zero. A primeira loja, no mesmo prédio da 406/407 Norte que até hoje abriga a unidade, ela abriu às pressas depois de conseguir entrar em um festival que exigia CNPJ. Há 12 anos, a marca homônima à empreendedora abriu as portas com 45 metros quadrados, paredes pintadas por ela e algumas prateleiras.

Foto: Myke Sena/ Jornal de Brasília

“Era uma decepção. Não vendia um par de sapato”, desabafa. Ela decidiu fechar. Colocou o estoque em promoção e instalou faixas nas ruas para não sair no prejuízo. Mas, quanto menor o preço, mais gente aparecia. A oportunidade estava ali e era R$ 50 o par. “Eu comprava o que ninguém mais queria, a ponta de estoque, e estipulava o preço aos fornecedores e revendia. O movimento não era tão bom, mas não queria morrer na praia”, conta.

Ela investiu em e-mail quando a ideia era remota para concorrentes. Começou a fazer vídeos quando também não era comum. Na porta de faculdades, entregava cartões de visita. O negócio chamava a atenção pelo preço baixo e crescia. Em 2010, ela já não comprava ponta de estoque, mas buscava materiais encalhados nos fornecedores para fazer os próprios produtos.

Quatro anos depois, sete lojas eram administradas, mas um roubo de uma carreta carregada com sapatos foi um balde de água fria – e ainda é mistério. “Desanimei e achei que nunca mais trabalharia com isso”, admite. Ela e o marido se mudaram para a Alemanha, onde passaram oito meses. A volta ao Brasil foi em 2016, após ser procurada por um fornecedor. Recomeçou: as lojas cresciam enquanto ela nem conseguia pagar aluguel.

“Cheguei a um nível que nunca imaginei. Percebo que tenho sucesso porque faço a diferença de algumas pessoas com o meu trabalho. Não vendo atendimento, embalagem, nada além do produto que a pessoa leva para casa. Nele, eu quero dar design, conforto, algo da moda, que tenha orgulho do que está usando”, explica.

Thaíza faz o design e escolhe os materiais e cores de todos os itens. Também cuida das redes sociais e responde internautas. Em 2019, ela sonha abrir uma nova unidade em São Paulo. “Faço com carinho. Não quero perder a essência, o contato direto, as histórias em cada item”.

Plano B virou Plano A
O negócio de Millena Lopes também começou no porta-malas do carro. O pé no empreendedorismo ela já tinha: na faculdade, comprava e revendia brincos. Mas foi a necessidade que mudou o rumo da vida. Ela foi “intimada” pela mãe a ajudar com a faculdade do irmão mais novo e o salário do emprego formal era todo comprometido. A receita do Plano B da vida tem uma amiga que conhecia uma costureira e um contato para parceria. Assim nascia a Vestido de Chita.

Em fevereiro de 2012, quando começava a se falar em crise econômica no Brasil, ela investiu R$ 600 e pegou 30 vestidos. “A ideia era uma loja virtual, mas não tinha condições de arcar com site”, lembra. O jeito foi criar um blog. Uma amiga posou para fotos e a outra fotografou. Era a vitrine. Millena ia na casa dos interessados e conciliava com o trabalho de jornalista.

Ela ainda lembra da primeira venda e guarda o caderno com as primeiras movimentações da firma. Com o dinheiro, comprava mais tecido e iniciava o processo. “Nunca mais precisei tirar dinheiro do bolso. A loja sempre se pagou”. Em janeiro de 2015, uma amiga de faculdade entrou na sociedade. Polliana Ribeiro estruturou a loja virtual. Na memória, é clara a lembrança dos primeiros embrulhos, feitos no tapete da sala.

A demanda cresceu e os estoques não cabiam mais no porta- malas. O showrrom no subsolo de um prédio na Quadra 102 do Sudoeste precisou subir e crescer. No fim de 2015, uma terceira amiga entrou na sociedade e a primeira funcionária foi contratada. Também já não dava para conciliar com outros empregos. Hoje, são três lojas físicas – para atacado, varejo e de estoque virtual – além do e-commerce. O plano B virou plano A.

“Tudo foi rápido, mas sempre com muito cuidado. No começo era errando, aprendendo, caindo e levantando. Depois buscamos a parceria com o Sebrae. Em 2016 tivemos nosso melhor ano de vendas. Fizemos uma black friday e vendemos um absurdo em um único dia. Os números mostraram que estávamos crescendo e começamos a fazer investimentos mais altos”, lembra Millena. A ambição é ampliar a cobertura nacional.

O público-alvo são mulheres maduras e clássicas. “A gente faz roupa para mulheres iguais a nós. Nas lojas, você não vai encontrar vestido muito curto ou colado, mas recebemos de adolescentes a senhorinhas”, explica. Juntas, elas fazem faz toda a produção – pesquisa de tendências, modelo, compra de tecido e aviamentos. O negócio conta com modelistas, costureiros. Diretamente, são três funcionários, mas a estimativa é de dez empregos indiretos.

Território a ser conquistado
Para ter sorte, verbena. Para inspirar força, o bambu. A lavanda traz serenidade, e a baunilha, o amor. A riqueza, desejo de muitos na virada do ano, fica por conta do ipê amarelo — a cara de Brasília. Essas fragrâncias, criadas pelo casal Rodrigo e Aduana Naves, estão nas prateleiras da Mercearia do Banho, em formato de difusor de ambientes, cremes, chantilly, séruns, esfoliantes e sabonetes. O negócio, familiar e em expansão, prova que estudar o território a ser conquistado é essencial para o sucesso.

O empresário Rodrigo Naves, de 41 anos, fez do sonho realidade ao equilibrar a afinidade com o negócio com a rentabilidade gerada por ele. A trajetória começou há 11 anos, com a abertura de um salão de beleza. Quatro anos depois, a falta de conexão com o ramo falou mais alto e o farmacêutico iniciou uma revenda de cosméticos. No entanto, ele queria ter os próprios produtos. Aos poucos, foi substituindo o que vendia pelas formulações próprias. Até que, em 2016, tinha sua própria marca. Hoje, a mercearia tem três lojas no DF e uma em Goiânia.

Kléber Lima/Jornal de Brasilia

Os quiosques, em shoppings, têm um diferencial chamado SPA das Mãos. Quem chega é convidado a experimentar esfoliação e hidratação. Uma vendedora explica tudo sobre o processo e proporciona uma verdadeira viagem pelos sentidos, guiada por aromas.

A marca tem um conceito marcante, que é oferecer momentos de bem-estar em vez de apenas produtos. Estes, aliás, livres de derivados de petróleo e parabenos. A divulgação espontânea é uma aliada nas vendas. “Metade do faturamento vem de kits para presentear. É comum que o presenteado volte para sua primeira compra”, diz Naves.

Em 2019, o público verá novidades: um aromatizador para automóveis, um creme em bisnaga para as mãos e duas novas unidades. No segundo semestre, o plano é vender produtos próprios em outras lojas. A longo prazo, a marca quer expandir o modelo de franquia — uma realidade desde 2016.

Até chegar ao que é hoje, a marca enfrentou desafios. “Montar uma equipe preparada, encarar a crise de 2016 e 2017, adequar contas, fazer planejamento para lançar produtos sempre”, descreve Naves. Agora, quatro indústrias terceirizadas em Brasília, Curitiba e São Paulo dão vida às fórmulas — tão sonhadas quando a loja ainda era uma vontade. “Quem manda no processo é o cliente. Maioria das ideias vem deles. Analisamos o que é interessante e começamos um estudo de viabilidade”, conta.

“Minha dica para quem quer empreender é estudar o negócio e ver se tem afinidade. No nosso caso, liderança e gerenciamento de equipe são muito importantes. Não adianta o negócio ser o mais lucrativo do mundo se você não gosta daquilo”, aconselha.

Sabor diferenciado conquistaAos 45 anos, o empresário Alexandre Santos tem muita história para contar. Ele iniciou a jornada pelo mundo dos negócios aos 15. Fez de tudo: foi engraxate, vendeu milho em paradas de ônibus, foi feirante, taxista, atendente do McDonald’s, DJ e dono de agência de turismo. Em cada função, aprendeu lições aplicadas, hoje, na rede de lanchonetes que fatura R$ 2 milhões por mês e emprega 120 pessoas: o Geléia.

Divulgação

“No McDonald’s, aprendi que você precisa ser ágil e muito limpo. Do táxi, trouxe a experiência de que quanto mais tempo você fica aberto, mais você vende. Nas festas, aprendi sobre marketing. Para dar certo, é necessário muita propaganda”, compartilha. As múltiplas experiências também geraram reflexões em um momento difícil da vida. “Fui taxista por cinco anos e vi que meu futuro ali seria isso. Fazendo festa, eu entendi que a noite era desgastante e que o futuro não era tão certo assim. Cheguei aos 30 anos quebrado e queria ir embora do Brasil, trabalhar, ganhar em dólar e voltar para empreender”, desabafa. O plano deu errado.

Como sempre, o apoio veio de amigos e familiares. Uma vaquinha de R$ 8 mil foi o investimento inicial no Dog do Geléia, estabelecimento que está de portas abertas ainda hoje no Gama. O pequeno negócio já chegou impactando. “Diferenciado de todos os concorrentes. Sentia a necessidade de comer algo com mais qualidade na cidade. Era tudo muito comum”, conta.

“Na época, o cachorro- quente no molho era industrializado e a gente levou o molho de tomate italiano, feito todos os dias. O feito na chapa era muito seco. Uma receita da minha mãe, o cachorro-quente de frango desfiado e bastante temperado, deixou o dog suculento”, lembra.

A primeira loja já vendia hambúrgueres — hoje, o produto pelo qual a marca se popularizou no DF. Mas a receita era outra, mais simples. “Eu já observava que meus concorrentes que vendiam hambúrguer tinham um movimento bom. Enxergava uma tendência ali”, afirma. “Não tive sócio, peguei empréstimo no banco e abri a segunda loja em 2009. Minha esposa, Katia Pires, é enfermeira e, na época, largou dois empregos públicos para cuidar das finanças”, conta.

Food trucks entraram na operação mais tarde, há quase quatro anos, e fizeram mágica. “Com 11 anos de experiência, tínhamos suporte para fazer algo especial. Material de qualidade com atendimento acima da média, na rua, foram diferenciais”, avalia.

A certeza vem da dimensão do negócio. O grupo Geléia tem quatro lojas: no Gama, em Santa Maria, em Águas Claras e na 409 Norte — onde funciona a hamburgueria O Concorrente. Três food trucks rodam por Brasília e um, extra, é exclusivo para eventos. Em 2015, quatro lojas foram fechadas para conter gastos. “Agora é só alegria”, diz Santos, e adianta que entre os planos para 2019 está a inauguração de uma loja na Asa Sul. “Estamos em negociação com três shoppings e com o aeroporto e finalizando o projeto de uma fábrica que levará nossos pães, molhos e hambúrgueres para supermercados”, comenta.

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