Homicídios: estatísticas não amenizam o problema no DF

População de Samambaia se revoltou com a morte de Ana Íris, de 12 anos que foi assassinada por um primo. Foto: Myke Sena

Jéssica Antunes
jessica.antunes@jornaldebrasilia.com.br

As famílias de Ana Íris e Yago Linhares Sik têm realidades diferentes e não se conhecem. De um lado está um povo humilde que divide um lote compartilhado em uma região que sequer tem asfalto em Samambaia. Do outro, parentes de classe média alta que moram no Jardim Botânico, área nobre do Distrito Federal. É a dor dos assassinatos que une os dois extremos. Apesar de o governo comemorar redução recorde de homicídios, 345 famílias sofrem a perda de um ente querido neste ano.

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O DF tem a menor taxa de homicídios dos últimos 23 anos. Nos sete primeiros meses do ano, foi a unidade da Federação com maior queda. Em uma perspectiva mais ampla, os crimes letais intencionais, que englobam latrocínios e lesões corporais seguidas de morte, tiveram, em 2016, a menor taxa desde 1992. A projeção para este ano, continuando no mesmo ritmo, é de 15,5%, menor em 29 anos.

Ponto de vista

“A redução do número de homicídios é uma grande conquista, mas ainda há muito o que fazer. Estamos distante dos padrões aceitáveis”, considera Georges Fredderico Seigneur, promotor de Justiça e professor do Uniceub. Para ele, políticas públicas precisam ser eficazes de forma a prender os responsáveis e punir com penas adequadas. “O crime é um caminho aparentemente tentador para alguns jovens. Um criminoso com mais de 30 anos normalmente está preso ou morre e, por isso, é triste que essa tentação exista”, opina. O especialista acredita que o alto índice de adolescentes que matam pode demonstrar uma fragilidade na legislação e nas políticas de combate à criminalidade, mas observa: “Raramente ficam internados pelo tempo máximo de três anos. Parte dos adolescentes pode ter assumido a culpa em função da sensação de impunidade”.

Setembro registrou recorde de queda de assassinatos, menor número desde 2002: 37. Dos presos em flagrante pelo crime, 91% aguardam, do Complexo Penitenciário da Papuda, o andamento do processo. Segundo dados do Tribunal de Justiça, os juízes mantiveram a prisão de 113 dos 124 casos que chegaram ao Núcleo de Audiência de Custódia (NAC).

Para Marcelo Durante, subsecretário de Gestão da Informação da Secretaria de Segurança Pública, um dos resultados da redução da incidência de homicídios é o recolhimento de armas (1,8 mil no ano pela PMDF). “Também temos demonstrações claras de que os procedimentos de investigação da PCDF vêm se qualificando e mostram que quem comete crime é punido. Temos uma das maiores taxas de esclarecimento de homicídio, de 65% a 70%”, defende.

Dia, lugar e hora

Crimes não têm regra de autor, vítima ou localidade, mas são as regiões carentes que mais registram homicídios. Ceilândia, Planaltina Samambaia e Santa Maria concentram a metade deles: foram quase 140. Enquanto isso, o Park Way está há quase três anos sem homicídios. No Cruzeiro, não ocorre um crime parecido há quase dois anos. No Jardim Botânico, nenhum registro é feito há um ano e meio.

De acordo com Marcelo Durante, a maioria das mortes ocorre pela noite, no fim de semana, e os jovens são protagonistas: eles matam e morrem. Os dados mostram que 94% das vítimas e 77% dos autores são homens de 18 a 24 anos.

Dos criminosos, 67% têm outras passagens pela polícia. Mais da metade das mortes acontece com uso de arma de fogo e 47% em vias públicas, exatamente como o crime que vitimou o DJ Yago Linhares Sik, 23 anos, há dois meses. Ele foi morto com dois tiros na praça central do Conic, na área central de Brasília, após uma festa.

Durante o evento, Lucas Albo de Oliveira se desentendeu com sua namorada, passando a xingá-la e agredi-la. Yago, que era amigo da mulher, também foi agredido pelo réu ao tentar defendê-la. Lucas, então, buscou a arma de fogo e disparou contra a vítima. O acusado já tinha sete passagens policiais, além de outras duas durante a adolescência. Ele deve ser interrogado ainda neste mês. Preso preventivamente, aguarda na Papuda.

Adolescentes que também matam

Segundo dados da Secretaria de Políticas para Crianças, Adolescentes e Juventude, homicídio é o segundo ato infracional mais cometido entre os 849 adolescentes que cumprem medidas socioeducativas no Distrito Federal atualmente. Conforme informações do último Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado em 2016, os adolescentes foram autores de 20% de todos os homicídios cometidos na capital.

“O menor começa furtando para ter acesso à droga, passa por roubo, consegue uma arma. Com uma arma na mão, eles não têm nada a perder. Se a vítima o enfrentar durante um roubo, vira um latrocínio. Jovens têm mais sangue na veia. A idade crítica é entre 17 e 20 anos. Ele atira e depois pensa”, afirma Marcelo Durante, da Secretaria de Segurança.

Saiba mais

  • De acordo com Marcelo Durante, normalmente os homicídios acontecem a cerca de cem metros da casa da vítima e a principal motivação é acerto de contas, seguida por motivo fútil.
  • Enquanto homens são as maiores vítimas de homicídios, as mulheres são alvos de tentativa de homicídio que ocorrem com uso de arma branca.

Ana Íris

Ana Íris não levou tiro. Foi estuprada e esganada pelo próprio primo, de 16 anos. A menina, de 12 anos, passou 16 dias desaparecida até seu corpo ser encontrado em estado de decomposição em um matagal em Samambaia, perto de casa.

Depois de quase ser linchado por moradores da região que se revoltaram com o crime, o adolescente foi apreendido pelo ato infracional análogo aos crimes de homicídio, ocultação de cadáver e estupro de vulnerável e aguarda no Núcleo de Atendimento Integrado (NAI). Ele não tinha passagens infracionais e poderá ficar recluso por até três anos.

Vítimas se vão e fica a dor da família

Nenhum dos dados traz conforto, calma ou paz aos familiares que sofrem com a morte, tantas vezes brutal, de filhos, pais, irmãos e amigos. “A gente vive em um mundo violento. A mãe ainda sente muito, mas está melhorando. Aos poucos, tenta lidar com tudo. Mais revoltante é o assassino, que ficou o tempo todo com a gente”, revela Cleonice dos Santos, dona de casa de 25 anos, tia da menina Ana Íris.

O corpo da garota deve ser liberado para o enterro nesta semana e a família teve de arrecadar dinheiro para conseguir sepultá-la.

Caso Yago

Em meio aos depoimentos que podem levar à condenação do assassino do sobrinho Yago Sik, Karine Camargo diz que reviver a morte é doloroso, esclarecedor e acalentador. “Ele destruiu nossa família, mas destruiu a dele também. Não tem volta, não tem conforto. Nós esperamos por justiça e que pegue a pena máxima”, afirma. Ela critica a falta de amor e o crescimento da futilidade e confirma que estatísticas não dizem nada.

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