Escândalos na política não ofuscam a beleza da capital, que começa pela arquitetura e chega ao céu

Ariadne Marçal

João Paulo Mariano
redacao@jornaldebrasilia.com.br

Há um panorâmico céu azul, um conjunto arquitetônico de tirar o fôlego e gente que veio de todos os cantos do País para fazer de Brasília um lugar de união. A aniversariante do dia faz 57 anos hoje e torna-se uma senhora de sabedoria, mas que vê, desde seu início, as pessoas esquecerem de suas belezas e lembrarem dela somente como local de fazer política. É operação Lava Jato daqui, Zelotes de lá, Drácon de outro, e parece que a capital é um local de corrupção generalizada, simbolizando o que o Brasil teria de pior. Brasília é bem mais que isso. É o lar que aceitou a todos e os transformou em brasilienses.

O guia de turismo Lúcio Montiel, 57, faz propaganda de Brasília para onde vai e fala da cidade com a propriedade de um professor. Também, ele guia turistas há 32 anos e, desde o início, ouve que a cidade nada mais é que “um monte de políticos” ou que “não há nada para se fazer aqui”. “Isso não é de agora. Começou no início da capital e permanece porque não fazemos propaganda da cidade tanto no Brasil quanto fora”, explica Lúcio, que vê Brasília como a máxima expressão modernista do século XX.

Ele avalia que isso era aceitável nos anos 1960, quando as pessoas estavam a acostumadas a ver cidades centenárias, como são Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, em pleno desenvolvimento, e olhavam para Brasília como um local no início, com apenas crianças nascidas na cidade que ainda não tinha raízes, pois os pais eram de fora.

Agora, ele diz que tudo mudou: “Brasília já tem sua terceira geração. Tem sua gente, seu sotaque, seu modo de falar, até mesmo suas expressões regionais. É uma forte senhora que amadureceu”.

Esse amor todo pela cidade não vem apenas do turismo, mas começou na infância, sendo parte da primeira geração de crianças nascidas aqui. O parto foi um dos primeiros do Hospital Distrital de Brasília, criado em 1960, atual Hospital de Base. Até o nome de Lúcio tem relação com a cidade. Foi uma homenagem do pai, o arquiteto Gladson da Rocha, morto em 2007, ao amigo da família Lucio costa, um dos responsáveis pela construção da capital.

Assim, Lúcio cresceu ao redor de Oscar Niemeyer e Burle Marx e não conseguiu mais abandonar Brasília. Formou-se em História na Universidade de Brasília, mas não quis deixar de apresentar a facetas da cidade aos turistas.

Capital como lar

O policial Hamilton Carvalho, 48, sente orgulho de ter nascido em Brasília e morado no Cruzeiro enquanto era ainda um acampamento. Agora, escolheu o Lago Norte para chamar de lar. Além de servidor, criou um food truck para alimentar sua paixão pela cozinha. Ele acredita que o pensamento daqueles que moram na capital mudou: não é mais de que Brasília não tem nada, mas que possui sua cultura, sua culinária, sua vida. Para o policial e chef, quem fala mal de Brasília é porque não a conhece de verdade.

Primeiro contato surpreende

A pernambucana Josicleide Souza veio a Brasília pela primeira vez nesta semana e não escondia o contentamento. A promessa é ir para casa em Olinda e voltar assim que possível, pois os quatro dias teriam sido poucos para conhecer a região.

“A gente que é do litoral tem a noção de que paisagem bonita é a que tem praia, mas estou encantada. Além do visual lindo, é organizada, tem uma limpeza boa e as pessoas são educadas”, comenta a engenheira civil, que visitou o DF a trabalho e volta para Pernambuco com uma nova amiga, a conterrânea Cristianne Fidelis, que conheceu aqui nesses dias e serviu de “guia de turismo” e de fotógrafa.
A servidora pública Cristianne transformou uma visita de quatro dias, em 2008, em uma estada para toda a vida, pois não há planos de voltar para o Nordeste.

Desde 2011, ela se mudou para cá com os filhos consciente de que ficaria longe dos parentes, mas poderia ter mais qualidade de vida. Cristianne admite que antes de morar aqui tinha a noção de que Brasília se resumia a um centro político, mas mudou completamente de opinião.
“Sei que as pessoas pensam dessa forma, mas os políticos que aqui ficam são de todo o Brasil. Para conhecer Brasília, você precisa andar, sair do hotel. Me tornei uma boa garota propaganda da cidade”, brinca.

Gracinésio Lopes, 25, mora em Água Claras e escolheu a cidade para estudar, trabalhar e morar. Ele veio de Minas Gerais e não planeja sair daqui por tão cedo, até por causa da intensa vida social, tornando “um local completo”.

Roteiro

O guia de turismo Lúcio Montiel preparou, a pedido do JBr., um roteiro especial para quem visita Brasília ou mora aqui e queira conhecer melhor a riqueza arquitetônica que ajuda a entender os 57 anos de história.

Centro Histórico da 308/108 e 307/107: O primeiro ponto mostra os planos de Lucio Costa, Oscar Niemeyer e Burle Marx ainda bem conservados, com belos jardins, e um centro comercial onde é possível encontrar a pizzaria Dom Bosco, que está no imaginário gastronômico da capital desde os anos 1960. Ali, ainda existe a Igrejinha de Fátima, primeira construção de concreto e tijolo inaugurada na cidade com os famosos azulejos de Athos Bulcão.

Ermida Dom Bosco, Lago Sul: Quem vai ao local tem um bom contato com a natureza e uma visão panorâmica do Lago Paranoá. Além disso, pode saber um pouco da história de Dom Bosco e seu sonho, que está no imaginário da criação da capital.

Memorial JK, Eixo Monumental: conta a história do homem que transformou o sonho de Brasília em realidade.

Praça dos Três Poderes, Esplanada dos Ministérios: Templo da arquitetura modernista, quem visita o local poderá conferir um dos maiores complexos modernistas criados no século XX com boa conservação.

Menção honrosa: Para quem já conhece esses locais, há uma indicação especial: conhecer a Vila Planalto e sua culinária diversificada. No início, ela era local do acampamento dos construtores, e agora concentra parte da história e restaurantes com comidas de inúmeros estados.

Ponto de vista

O geógrafo e professor emérito da Universidade de Brasília Aldo Paviani se considera metade gaúcho – seu estado de origem – e metade brasiliense, já que está aqui há 48 anos. Ele lembra que as belezas de Brasília ficam escondidas atrás dos problemas políticos desde o início, mas que isso só vai mudar quando mais propagandas da capital e de suas qualidades forem feitas. Paviani avalia que é necessário ter gerações mais longas para conseguir haver mais expressões locais. O incentivo ao turismo é muito importante para levar o nome da cidade a todos os cantos.

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