Com paródia, hospital alerta para terrorismo das bactérias

Jaqueline e Kelly destacam a necessidade de os profissionais retirarem adornos, como colares e crachás, além da limpeza das mãos. Foto: Breno Esaki

Jéssica Antunes
jessica.antunes@grupojbr.com

A cada cinco minutos, três pessoas morrem no Brasil em virtude de contaminações ocorridas dentro dos hospitais. Dados do Anuário da Segurança Assistencial Hospitalar indicam que os eventos adversos nas unidades de saúde são a segunda causa de morte mais comum no País, e compreendem erros de dosagem ou na aplicação de medicamentos, uso incorreto de equipamentos e infecção hospitalar. Apesar de normas definirem cuidados, vigilância constante é necessária.

Em 2016, foram notificadas 789 infecções primárias de corrente sanguínea confirmadas laboratorialmente no DF, sendo 56,7% em pacientes adultos, 39,5% em pacientes neonatais e 3,8% em pacientes pediátricos, todos internados em Unidades de Terapia Intensiva, onde é necessário mais cuidado.

O principal micro-organismo notificado como agente causador de infecções foi o Staphylococcus coagulase negativo. Conforme a Coordenadora de Infectologia da Secretaria de Saúde do DF, Eliane Bicudo, trata-se de uma bactéria existente naturalmente na pele humana, mas, em contato com a corrente sanguínea, pode causar algum tipo de problema.

No ano passado, a Gerência de Risco em Serviços de Saúde, vinculada à Diretoria de Vigilância Sanitária da Subsecretaria de Vigilância em Saúde, visitou 38 hospitais públicos, privados e militares da capital para avaliar as práticas de prevenção e controle de infecção hospitalar. Na ocasião, descobriu-se que mais da metade das unidades descumpria a normativa de não utilização de adornos (53%), 43% aplicavam a técnica correta para higiene manual, e em todas havia presença de álcool.

“Não existe hospital com taxa de infecção zero”, diz Eliane Bicudo. De acordo com ela, em hospitais públicos há dificuldades como superlotação de pacientes. “Existe uma perspectiva da Organização Mundial da Saúde (OMS) que, em 2050, teremos muito mais mortes por bactérias multiresistentes adquiridas em hospitais do que câncer. É uma projeção que temos que tentar mudar agora”, avisa.

O controle vai até o paciente, que, para ela, precisa ser esclarecido e exigir qualidade no atendimento e cuidado nos hospitais.

Na internet

No Hospital das Forças Armadas (HFA), o cuidado virou campanha, ganhou música e clipe, e agora roda a internet. Em uma paródia da canção Olha a Explosão, do MC Kevinho, faixa mais tocada no Carnaval deste ano, um grupo de funcionários alerta para a Norma Regulamentadora 32, que dá diretrizes básicas de segurança de trabalho nos estabelecimentos de saúde para proteção do profissional e do paciente.

A norma veda o uso de alianças, bijuterias, todo e qualquer tipo de joias, relógios, broches, piercings expostos, gravatas, crachás pendurados com cordão, acessórios de uso pessoal ou qualquer adorno que impeça higienização adequada das mãos e que favoreça a proliferação de bactérias.

Rebolado no centro cirúrgico

“A bactéria é terrorista, é especialista, e com os adornos ela é pior ainda. É muito explosiva, melhor lavar a mão. É muito invasiva, não brinque com ela, não. Olha a proteção. Quando ela tira o anel da mão, quando eles tiram o crachá e o cordão, quando ele tira o relógio da mão. Cirurgia segura sem infecção”, diz a letra da paródia da equipe do Hospital das Forças Armadas, que, nas redes sociais, ultrapassa a marca de 300 mil visualizações (assista no site do Jornal de Brasília). De letra a coreografia, tudo foi feito pelos funcionários do hospital.

As imagens, gravadas dentro de um centro cirúrgico do HFA, mostram procedimentos de assepsia e cuidados e conta com a participação de mais de 20 funcionários.

Integrante do Núcleo de Qualidade e Segurança do Paciente e chefe do centro cirúrgico do HFA, Jaqueline Mota diz que a música foi escolhida de modo a chamar a atenção, de forma leve e divertida, para impactar sobre um tema importante na área de saúde.

Condutores

“Há muitos estudos que mostram que adornos servem de condução de micro-organismos. No ambiente cirúrgico o cuidado deve ser maior, mas a atenção tem que ser geral porque pode aumentar o risco hospitalar e até levar a morte”, diz Kelly Cristina Alvim, chefe da enfermaria do centro cirúrgico.

Saiba mais

  • Todos os hospitais têm obrigação de manter um serviço de controle de infecção hospitalar, com políticas para praticar ações que levem a prevenção.
  • Entre elas, está a avaliação de setor, auditorias, controle de padronização de esterilização, de temperatura do ambiente, de potabilidade da água e de limpeza do ambiente.
  • A medida de maior eficácia é a higienização das mãos, por impedir a transmissão cruzada de micro-organismos.

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