Cada vez menos comum, a sucessão familiar ajuda na sobrevivência do agronegócio

Genésio Müller apresentou o agronegócio aos filhos: três deles trabalham diretamente com o campo. Foto: Kléber Lima

João Paulo Mariano
redacao@jornaldebrasilia.com.br

A rotina de Genésio Müller, 63 anos, se inicia antes de o sol aparecer, por volta das 5h. A vida na fazenda tem que começar cedo para que seja bem produtiva, já que, sem o trabalho diário, não é possível crescer. Foi dessa forma que ele criou os quatro filhos e apresentou o agronegócio a eles. Três trabalham diretamente com o campo. O mais velho, Giovanni Müller, 38, já toca boa parte dos assuntos da fazenda Ibi Atã, expressão que significa “Boa Terra”. Apesar de ser cada vez mais difícil, a sucessão familiar ajuda na sobrevivência do agronegócio no DF. A família Müller é uma das muitas que atuam nesse setor, responsável por movimentar mais de R$ 2 bilhões anualmente na capital.

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O gosto dessa família pela área rural começou no Sul do Brasil, mais precisamente no município de Três de Maio, no Rio Grande do Sul. Genésio e a mulher, Eliza Maria, foram criados neste ambiente, se casaram e começaram a tocar a vida em uma porção de terra de cinco hectares que o pai doou. Ele, que é técnico agrônomo de formação, veio para Brasília em 1984 com o sonho de ter sua própria plantação, já que até então só tinha trabalhado para terceiros. Aqui, com o dinheiro da venda da terra do pai, conseguiu comprar 40 hectares, que hoje se tornaram 700.

“Talvez, se tivesse continuado lá, seria somente um empregado e não teria conquistado tudo o que consegui”, afirma Genésio. Sobre os filhos seguirem o seu caminho, ele, com orgulho, afirma: “Eu só sei plantar. Não tenho vocação para o comércio. Para mim, é importante que meus filhos estejam comigo”. Apesar disso, Genésio entende que o produtor rural não é valorizado nem pelo governo nem pela sociedade. “Você precisa de médico uma vez por ano, mas, do produtor rural, todos os dias. Ainda assim, a gente não é valorizado”, diz.

Paixão falou mais alto

Apesar de formado em Direito, Giovani Müller resolveu seguir a paixão e tornou-se produtor rural. O pai lembra que o primogênito sempre gostou de agronomia, mas foi por outro rumo e ele o apoiou. “Ser agricultor está no sangue. Por isso que está cada vez mais difícil formar um sucessor”, confessa Giovanni. Ele não sabe se o filho, que tem oito anos, vai continuar o negócio, pois a correria é grande e se tem muitos “perrengues”.

Com os amigos, vê o mesmo cenário. Mesmo assim, Giovanni não se deixa abater por isso e tem participação ativa com a comunidade, tornando-se presidente da instituição patronal, o Sindicato Rural do Distrito Federal (SRDF).

Do futuro, o patriarca da família Müller espera que os filhos continuem o trabalho incansável que ele aprendeu com o avô deles ainda no Sul do País. Uma vez que a aposentadoria não é algo pelo qual possa contar, ele espera que sua prole possibilite um bom sustento para ele quando não for mais possível viver na correria diária. “Na sucessão familiar, quem tem um pouco de capital e consegue tocar o negócio fica bem. Se há produção, mesmo arriscando, pode ter um retorno”, acrescenta.

Incentivo

O GDF garante que incentiva o agricultor e busca entender o assunto. Até na AgroBrasília 2017, a maior feira do ramo no Centro- Oeste e a quinta maior do Brasil, um dos temas discutidos são as formas possíveis para fazer essa sucessão com êxito e que o amor dos filhos pelo campo seja tão grande quanto o dos pais. A feira ocorre desde a segunda-feira passada e vai até amanhã, das 8h30 às 18h, no Parque Ivanildo Cenci, no PAD-DF.

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