Vaidade das vaidades…

…tudo é vaidade, já dizia o pregador. A gente encontra esse texto lá no livro de Eclesiastes. E a palavra vaidade tem o sentido de coisa sem valor, supérflua. É besteira. O tema que vamos abordar hoje me fez lembrar isso.

Projeto de fim dos tratamentos das excelências

Um projeto que tramita no Senado Federal de autoria do senador Roberto Requião determina que fica proibida a exigência por parte de autoridades que lhe sejam dispensados tratamento como Vossa Excelência ou Vossa Magnificência. A proposta ainda sugere que “senhor” ou “senhora” é suficiente para denotar respeito em quaisquer casos.

O senador justifica que, em uma democracia, é incabível o uso de tratamento protocolar herdado de uma monarquia, que traz uma série de exageros. No outro lado do pêndulo, lembramos o depoimento do ex-presidente Lula, que se dirigiu a uma procuradora chamando-a de “querida”. Na ocasião, foi interpelado pelo juiz Sérgio Moro, que exigiu o tratamento protocolar, sugerindo “doutora”.

Costumes e prática social

A linguagem faz parte da prática social e ela demonstra como vivemos. Nesse particular, temos a demonstração de que pessoas se dirigem a outras com termos que aparentem respeito (até mesmo para conseguir coisas ou por coação), para bajular ou para cumprir protocolo (exigência de poder).

Nesse meio, temos pessoas que abusam do poder e querem demonstrar superioridade, seja com argumentos de lei ou com humilhação. Nesse sentido, o reconhecimento pode ser feito por coação, como dito acima, ou por interesse, dando a alguém um título que nem existe ou não é adequado.

As excelências e os doutores

Creio que há muitas nuanças da forma de tratamento das excelências. Tem alguns detalhados por lei, relacionados em listas de redação oficial (muito determinada pelo Manual de Redação da Presidência da República). Mas quem nunca foi chamado de “excelentíssimo” por algum amigo?

No caso de doutores, é mais aparente. Advogados e médicos têm a prática comum de serem chamados assim. Há os doutores que são donos de empresas, assim tratados até em cartas, mesmo sem formação alguma. Além disso, algumas formas de serviço tratam de “doutores” qualquer um que se valha dele: garçons, ascensoristas, frentistas, por exemplo.

Considerando que doutores têm formação acadêmica adequada, parece ser injusto um cliente de médico e advogado não saber se é atendido por um doutor de formação. Mesmo assim, muitos exigem tal tratamento. Não acredito que tal projeto seja aprovado (os vaidosos não vão deixar). De qualquer forma, é bom salientar que, mesmo se passar a proposta, também não creio que haverá mudança na redação oficial. Ali há ambiente para a formalidade. Mas a vaidade impera ainda. Uma besteira, não é mesmo?

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