Em favor do mi-mi-mi

Vivemos tempos em que as pessoas têm o direito de tornar pública sua manifestação a respeito de tudo nesta vida. Todo mundo, de posse de um perfil em qualquer rede social, comenta assuntos da atualidade para denunciar, agradecer, parabenizar, reclamar, elogiar ou dar sua opinião simplesmente.

Muitos dizem que estamos na época do mi-mi- mi e que isso é muito chato. Pra mim, tanto faz. Acho que todo mundo tem direito ao mi-mi- mi, mas, assim, com hífen. Estamos falando de uma onomatopeia. Vamos, então, entender por que mi-mi- mi deve ser grafado dessa forma. A palavra é classificada como onomatopeia. Você já deve ter ouvido falar, pelo menos lá nas classes iniciais da escola. Trata-se daqueles sons escritos que imitam algum barulho. Podemos lembrar, também, de ti-ti- ti, bum, crás (voz do corvo) e outras.

Mas não é uma palavra nova?

Entender que se trata de uma onomatopeia não é difícil. Aliás, já quando essa palavra começou a aparecer entre a gente, lembro que as pessoas faziam o som imitando alguém chorando e chegavam a fazer o gesto característico de alguém secando lágrimas com as mãos fechadas, sabe como é? Isso já tem uns 10 anos. Alguém poderia dizer que a palavra é nova e que não tem no dicionário ainda. É verdade isso. Mas todas as palavras seguem algumas regras, de acordo com sua natureza.

O que fazer se criamos um vocábulo?

Ninguém espera uma palavra nova entrar no dicionário ou no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, o Volp, para poder escrevê-la. A pessoa simplesmente a escreve. Sendo assim, ela tem algumas regras prévias aprendidas. Por exemplo: sabemos que se criarmos uma palavra que termine com A, dissílaba e oxítona, devemos acentuá-la. Por causa de cajá, Pará e outras, tendemos a acentuar a hipotética palavra “polá” (se assim for pronunciada, é lógico). Até porque, oxítonas terminadas em A carregam o acento agudo.

Mas se todo mundo escrever “mimimi”?

Algumas palavras podem entrar no caso da grafia consagrada e escapar da regra, ficando diferenciadas. Entretanto, cá pra nós, 10 anos (aquele tempo especulado de uso que falei lá em cima) é muito pouco para considerar qualquer palavra consagrada, né? Ela pode, até mesmo, desaparecer.

Mas por que, então, mi-mi- mi?

Depois do Novo Acordo Ortográfico, houve uma ocorrência padronizada de grafia das onomatopeias que têm sílabas repetidas. Alguns exemplos são: ti-ti-ti, blá-blá- blá, zum-zum-zum e cri-cri (canto do grilo). Essas palavras, antes do acordo, eram escritas tititi, blablablá, zunzunzum e cricri. Portanto, está havendo um padrão. Dessa forma, nosso mi-mi- mi é assim. E só seria diferente em duas situações: se surgisse antes do acordo ou se viesse a cair na consagração. Mas, não há como. A regra já é patente.

Parem de “mimimi”

Agora, sim, eu posso dizer então: parem de “mimimi”. Eu até vou entender o mi-mi- mi, depois dessa explicação toda. Afinal, todo mundo tem direito a expor seu pensamento nesse mundo vasto e fascinante das opiniões abertas nas redes sociais. É saudável e é uma partilha de pensamentos bem legal (desde que não haja agressões, poxa!). Então isso é válido. Pois sou a favor do mi-mi-mi. Mas, a partir de agora, parem de “mimimi”, por favor.

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