Legados

Há poucos dias comentei aqui que o jogo entre Vasco e Flamengo, pelo NBB (o Brasileiro masculino de basquete) teve de ser adiado porque não havia (há) no Rio de Janeiro um ginásio em condições de receber a partida, com a presença de duas torcidas. O Tijuca Tênis Clube, onde o rubro-negro vem mandando seus jogos pelo torneio, tem capacidade para mil pessoas e “é ginásio para uma só torcida”, por motivos de segurança, é claro. E isso numa cidade que há menos de quatro meses recebeu os Jogos Olímpicos. Onde está o tal legado? Nem o Maracanãzinho, de longa história e tradição, está liberado (aí por problemas com a administração).

Falando assim dá a impressão de que o Brasil é um grande tumulto, sem administração, sem nada, certo? Sim, mas não pensem que a desorganização, como a jabuticaba, é coisa “apenas” nossa. Nada disso. Agora mesmo recebo informações de que os Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020, já estão duas vezes e meia mais caros do que a previsão inicial e, segundo os especialistas, o valor deve quadruplicar até que a chama olímpica se apague lá pelos lados da terra do sol nascente. Isso mesmo: a previsão inicial de gastos para a Olimpíada de Tóquio deve ser batida em quatro vezes. Um espanto!

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Quando, na cerimônia de encerramento dos Jogos Rio 2016 o primeiro-ministro japonês apareceu inicialmente no telão do Maracanã, ainda em Tóquio, e acabou se materializando no centro do gramado vestido de Super Mario, o mundo pode ver a importância que a Olimpíada teria para o Japão. Não é qualquer autoridade (e estamos falando da maior autoridade de uma das cinco maiores potências econômicas do mundo) que se veste de personagem infantil para dizer ao mundo que seu país irá ser a sede dos Jogos Olímpicos. As crianças vibraram. Meus filhos disseram, de pronto, que querem ir a Tóquio. A partir daí, porém, a massa desandou.

A construção de novos ginásios para o vôlei e a natação, por exemplo, já provocam graves desavenças entre as autoridades japonesas. Hoje é quase certo que não serão erguidas novas instalações, utilizando-se ginásios já existentes – e são muitos no Japão. Lembrando que o parque aquático do Rio de Janeiro foi muito criticado pelo Comitê Olímpico Internacional e, principalmente, pela Federação Internacional de Natação, por ser “pequeno”, recebendo pouco mais de 12 mil torcedores. Até as provas de remo e canoagem, por medida de economia, devem deixar Tóquio e serem realizadas a uns 300km da capital japonesa, em Miyagi.

Todas estas medidas fazem parte dos desejos da nova governadora de Tóquio, que não pretende impor “um legado negativo” à população da cidade após os Jogos – leiam dívidas a serem pagas. Aliás, essa palavra legado, vinda diretamente do inglês “legacy”, é que me parece estar atrapalhando tudo. Quando não havia esta preocupação, quando a Olimpíada era uma celebração da paz entre os povos e uma competição esportiva, pura e simplesmente, os gastos eram menores; não existiam tantas exigências; e, claro, era mais fácil ver-se o que efetivamente ficava de herança (palavra bem mais bonita do que legado) para quem organizava os Jogos.

Em Barcelona, por exemplo, a cidade se reinventou, recuperou-se, deu nova vida à uma área que estava abandonada. Em Sidney algo semelhante aconteceu. O mesmo não se pode dizer a partir de então. Os Jogos de Atenas ajudaram a quebrar a Grécia. Em Pequim, vemos hoje instalações que, quando muito, servem para o lazer da população – pelo menos servem para alguma coisa. Londres ficou num meio termo: como não foram feitos tantos gastos estratosféricos para se alcançar um “legado”, parte da cidade se recuperou e os valores não causaram, pelo menos até agora, que se saiba, danos aos cofres. No Rio… Bem, não preciso repetir tudo o que aconteceu, não é mesmo?

Os membros do comitê organizador dos Jogos de Tóquio se dizem envergonhados com as mudanças propostas. Tudo o que está sendo discutido, para evitar o “legado maldito” para a cidade, desvirtua o projeto vencedor que foi apresentado – e os japoneses são muito sérios neste aspecto. É bem provável que a equipe organizadora dos Jogos de 2020 sofra muitas baixas até que efetivamente a chama olímpica chegue ao território japonês. Só que, pensando friamente, será que estarão errados aqueles que defendem um controle estrito de gastos para evitar que os “legados malditos” superem a satisfação de ver uma Olimpíada em sua casa? Sinceramente acho que não.

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