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Histórias da Bola

O presidiário Ranulfo

Os torcedores do futebol baiano diziam que o futebol de Ranulfo crescera mais do que ele. Bom de chutes, dribles e exibindo cortes secos sobre os marcadores, ele passava a bola na medida. Nem um milímetro a mais, ou a menos.

Quando Ranulfo arrasava, com a camisa do Ipiranga, o América foi busca-lo, em 1949. O “Diabo Rubro”, no entanto, não tinha um bom time, terminou a temporada carioca em sexto lugar – 17 pontos a menos do que o campeão Vasco da Gama, que teve o dobro de suas vitórias (18 x 9) e 32 gols a mais –, não permitindo a Ranulfo obter o mesmo sucesso dos tempos da Bahia – Osni, Ivan e Mundinho; Hilton, Osvaldinho e Gamba; Heitor, Nivaldino, Dimas, Ranulfo e Natalino foi o time americano em que Ranulfo entrou.

No entanto, em 1950, o treinador Délio Neves arrumou o time americano e Ranulfo pode render o que dele se esprava e terminou vice-campeão – Osni; Joel e Osmar; Rubens, Osvaldinho e Godofredo; Natalino, Maneco, Dimas, Ranulfo e Jorginho foi a escalação que decidiu o título, contra o Vasco da Gama. Não foi campeão, mas merceu convocação para o selecionado carioca que saiu vice do Brasileiro de Seleções Estaduais,.em 1951 (?).

No Rio de Janeiro, Ranulfo não jogou só bola. Jogou, também, um jogo como o diabo gosta. Envolveu-se com uma menina dessas do tipo “chave de cadeia”, menor de idade, e não segurou o ataque. Invadiu a área e, depois, não adiantou o papo de não era o pai da criança.

Ranulfo ficou sem ambiente na casa do “Diabo” e foi para a paulistana Portuguesa de Desportos, em 1952. Mas, como o técnico Jim Lopes com tava como “atacaço” – Julinho Botelho, Renato, Nininho, Pinga e Simão – ele não esquentou lugar no clube. Em 1953, teve o seu passe comprado pelo São Paulo, quando o trinador Vicente Feola escalou seu time assim: Poy; De Sordi e Mauro; Bauer, Pé de Valsa e Alfredo; Lanzoninho, Negri (Gomes), Gino, Ranulfo e Teixeirinha. Pena que, além de garanhão, gostasse de “molhar o pescoço por dentro”. Terminou pingando fora da área do time tricolor paulistano e foi parar no tmbém paulista, Noroeste, de Bauru.

Quando rolava pelo alvirrubro bauruense, a Justiça enviou, do Rio de Janeiro, ordem de prisão para o cidadão Ranulfo Pereira Machado, nascido em 27 de maio de 1926, na baiana Ilhéus. Ele estava casado com uma outra mulher e tinha filhos. A sua sogra chegou até a apelar para o presidente da República, pedindo que o indultasse, após um ano e meio preso.

Não adiantou. No carioca Sanatório Penal de Bangu, Ranulfo sentiu-se abandonado pelos amigos e até pelo Noroeste, segundo dizia, por ter-lhe negado a liberação do seu passe. Pretendia voltar a jogar, após cumprir a pena, mesmo já contando 30 de idade.

Na prisão, por ter com bom comportamento, Ranulfo podia manter a forma física, jogando futebol por um time de internos, o Esporte Clube dos 20. Além dos familiares que o visitavam, só quem olhou para ele foi o América, que atendeu ao seu pedido e enviou-lhe um jogo de camisas – jogo duro para quem vestira a jaqueta da seleção carioca, ao lado de craques feras, feríssimas.

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