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Histórias da Bola

O homem da folha seca

Após a Copa do Mundo-1962, quando o meia Didi voltou do Chile bicampeão mundial, ele decidiu fazer uma pausa na carreira e assinou contrato para treinar o peruano Sporting Cristal. Quando despedia-se de velhos companheiros e embarcava para Lima, a capital do Peru, ouviu dirigentes botafoguenses brincarem, dizendo-lhe não aceitarem o seu adeus, só um até breve. Não lhe davam mais do que três meses para sentir saudades dos gramados e voltar.

Didi, no entanto, demorou-se mais: duas temporadas. Quando não aguentava mais a distância da bola jogando, voltou ao Botafogo. Licenciado pelo Cristal, ele só não poderia treinar nenhum time. O acerto com os alvinegros cariocas não foi problema, pois o seu passe ainda pertencia ao clube, que só o havia liberado para aquela aventura peruana.

Financeiramente, voltar ao Botafogo fora bola fora. Didi aceitou ganhar Cr$ 150 mil cruzeiros mensais, mais Cr$ 150 mil por vitórias e Cr$ 100 mil por empates. Atuando no exterior, levaria Cr$ 300 mil por jogo e, ainda, receberia gratificações vencendo ou empatando, o que era chamado por “bicho”, antigamente. Isso significava-lhe faturar Cr$ 750 mensais, entrando nos normais cinco jogos mensais. Perderia, do contrato com o Cristal, Cr$ 600 mil a cada final de mês.

Didi voltou do Peru com um derrame no joelho direito, causado por um pontapé levado no jogo que disputara contra o Barcelona local. Mas algumas aplicações de calor resolveu o problema, deixando-o otimista ao ponto de sonhar em disputar a Copa do Mundo-1966. Garantia ter condições de ser titular em qualquer clube do planeta.

Animado pela volta aos treinos no acanhado estádio da Rua General Severiano, Didi prometia esticar o tempo de duração de seus passes de curva e das “folhas secas” – batidas de falta, com a bola fazendo uma curva e, na queda, lembrando folhas secas levadas pelo vento – até o Mundial que seria feito pelos ingleses. Em seguida, encerrar a careira de atleta e ser, definitivamente, treinador.

Do tempo passado como técnico do time peruano, Didi chegou considerando de grande importância para a sua nova vida de jogador ter podido observar e estudar, como comandante de equipe, do lado de fora do gramado, as falhas dos adversários , os buracos abertos pelas defesas, tudo o que lhe passava desapercebido. Era só colocar em prática o que aprendera do lado de foras do gramado, prometia.

Didi voltou e a torcida alvinegra gostou. Com ele, o treinador Zoulo Rabelo passou a ter três boas figuras para uma mesma posição: além do craque chegante, Gérson de Oliveira Nunes, o “Canhotinha de Ouro”, grande ídolo da galera e considerado o seu sucessor na Seleção Brasileira, e o promissos Arlindo.

Didi estreou no Campeonato Carioca-1964 no 5 de julho, ajudando o Botafogo a golear o Canto do Rio, por 6 x 0, no Estádio Caio Martins, em Niterói, com jornada gloriosa de Jairzinho, autor de quatro gols – Gérson e Quarentinha completaram a balaiada e o time teve: Manga; Joel Martins, Zé Carlos Gaspar, Nilton Santos e Paulistinha; Elton e Gérson; Jairzinho, Didi, Quarentinha e Bira.

Depois daquilo, o treinador Zoulo Rabello o escalou em mais duas partidas do primeiro turno: 30.08 – 1 x 2 Bonsucesso e 06.09 – 0 x 2 Fluminense. Para a estreia botafoguense no returno – 26.09 – 1 x 0 Olaria – Didi foi recuado para formar o meio-campo com Gérson, na posição que vinha sendo de Élton. E assim jogou por mais oito partidas, tendo marcado um gol – 25.10 – 3 x 1 Madureira. Quando saiu Zoulo Rabelo e entrou Geninho no comando técnico, Didi não foi escaldo na quatro última partidas botafoguenses no Estadual, e o meio-campo voltou a ser Élton e Gérson, a partir de 21 de novembro, no 1 x 1 Bonsucesso.

O currículo, então, ficou sendo: 05.07.1964 – 6 x 0 Canto do Rio; 30.08 – 1 x 2 Bonsucesso; 06.09 – 0 x 2 Fluminense; 01.10 – 3 x 1 América; 04.10 – 1 x 0 Campo Grande; 10.10 – 3 x 4 Bangu; 17 .10 – 1 x 1 São Cristóvão; 25.10 – 3 x 1 Madureira; 01.11 – 1 x 1 Portuguesa; 07.11 – 2 x 0 Vasco da Gama.

Tendo Didi por dez partidas, o Botafogo terminou o campeonato em quarto lugar, empatado, com o Flamengo, em todos os critérios, exceto no saldo de gols – dois a menos. Fluminense e Bangu foram campeão e vice, respectivamente, indo para um jogo extra, com um ponto a mais do que flamenguistas e botafoguenses.

Nascido, em Campos-RJ, em 8 de outubro de 1928, Waldir Pereira, o Didi, viveu até 12 de maio de 2001, por 72 temporadas. Em suas três passagens pelo Botafogo – 1956 a 1959; 1960 a 1962, e em 1964 – disputou 313 jogos, marcou 114 gols – no total, com as passagens por outras equipes, foram 237, sendo 21 pela Seleção Brasileira – e conquistou oito títulos, dos quais os mais importantes foram os Estaduais-1957, 1961 e 1962, e o Torneio Rio-São Paulo-1962.

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