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Histórias da Bola

Canelas e Branquelas

O basquetebol brasileiro tem muitos treinadores importantes. Mas nenhum deles é tão cultuado pela história quanto Togo Renan Soares, certo? Errado! – só a primeira parte está correta. Ele era, só, Togo Soares, pois o padre que o batizou recusou fazê-lo cristão com o nome (Renan) de um filósofo francês que negava a existência de Deus – Togo foi por conta der um almirante japonês que havia vencido os russos. E de nada adiantou os pais discutirem nome com o vigário e nem o garoto ser sobrinho de um ex-governador da Paraíba – Camilo de Camilo. O reverendo fechou questão e arrumou, no futuro, por causa daquilo, um grande inimigo para a Igreja Católica Apostólica Romana. Mas a imprensa carioca resolveu colocar o Renan na vida do Togo, que virou Canela (depois ele trocou o C pelo K) porque os amigos não o perdoavam por ter canelas muito finas e branquelas.

Nascido paraibano, no 22 de maio de 1906, em João Pessoa, Kanela foi para o Rio de Janeiro, já adolescente, predestinado a revolucionar o basquete brasileiro, criando o arremesso da zona inerte e o jogo à base de contra-ataques. Mas, inicialmente, foi atleta e treinador de pólo aquático do Botafogo, mesmo sem saber nadar. A partir de 1929, virou técnico do futebol do Bangu e do Botafogo. No primeiro, por ocasião de um Bangu x Flamengo, na Rua Payssandu, ele convenceu o então insistente meio-campista Domingos da Guia a ser zagueiro – tornou-se um dos mais completos da história do futebol – por não vê-lo com bom futuro sendo centro-médio do segundo time banguense. Com o Botafogo, Kanela ficou tri campeão carioca amador e chegou a vencer os profissionais de Bangu, Bonsucesso e Madureira. Pouco depois, o presidente do (extinto) Conselho Nacional de Desportos-CND, Vargas Neto (sobrinho predileto do presidente Getúlio Vargas) proibiu jogos entre profissionais e amadores. Em 1929 e em 1936, comandou o time A botafoguense.

O basquetebol entrou na rota de Kanela a partir de 1940 – em 2007, tornou-se o primeiro treinador brasileiro incluído no Hall da Fama do Basquete Mundial. Ele dividiu a carreira entre o Flamengo e a Seleção Brasileira, levando esta ao bi mundial (1959 e 1963); à medalhas de bronze nos Jogos Olímpicos de Roma-1960 e Tóquio, em 1964; aos vices mundiais (1954 e 1970); ao bronze mundial (1967); à prata (1963) e ao bronze (1951 e 1959) dos Jogos Pan-Americanos, além de ganhar as Copas Américas de 1958, 1960, 1961, 1963 e 1971. Comandou o escrete nacional por 103 jogos, com 87 vitórias e 16 derrotas, em 14 disputas oficiais, em muitas delas contando com os cracaços Wlamir Marques, Rosa Branca e Amaury Passos, entre outros, nas décadas-1950/60

No Flamengo, Kanela esteve treinador do futebol em 1948 e em 1949, mas foi a partir da Era Gilberto Cardoso que ele começou a ganhar tudo no basquete carioca, de 1951 e 1960 (decacampeão), totalizando 12 canecos cariocas.

Kanela tinhA, também a fama de brigão. Saiu do Botafogo brigado com o presidente Carlito Rocha, por não aceitar que o folclórico homem lhe impusesse a sua vontade. Mas foi com Gerdal Bôscoli, em 1939, a sua maior pendenga. Ela queria ganhar todos os campeonatos cariocas da temporada e só faltava o juvenil. Jogando contra o Vila Isabel, o Botafogo vencia. Quando o adversário passou à frente, pela primeira fez, o árbitro encerrou a partida. Como a mesa tinha um jogador do Vila e ele viu os juízes roubando escandalosamente seu time, chamou o diretor técnico da Federação Carioca de Basquetebol, Carlos Reis, de capanga e o presidente Gerdal Bôscoli de chefe da gang.

Carlos Reis eras um armário, campeão de boxe da Marinha. Residia em cima de uma leiteria onde Kanela ia se alimentar, diariamente. Se deixasse de ir comer a sua tradicional média (prato da moda), seria covardia. Então, ele vestia um paletó, colocava em um dos bolsos um revólver, sentava-se à uma mesa ao fundo, de costas para a parede, e não tirava os olhos da porta, se precavendo contra uma possível entrada de Reis, que nunca pintou.

Durante o Mundial-1963, no Rio de Janeiro, Kanela invadiu a quadra do Maracanãzinho, no jogo Brasil x União Soviética, e mandou um tapa na cara do árbitro uruguaio, por este ter marcado falta técnica de Amaury Passos, que ele considerou injustas. O pancadão rendeu uma crônica de Nelson Rodrigues, titulada por “O Tapa Cívico”. Ele era assim. Bom de títulos e de briga.

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