É DO BRASIL

O uso da linguagem mostra como a sociedade funciona. A língua é um organismo vivo que faz parte do contexto social. Nesse sentido, ela não somente mostra o que acontece na sociedade – o que significa dizer que, por seu comportamento, entendemos como agem as pessoas de algum grupo –, mas também, quando queremos mudar alguma atitude, podemos começar pela nossa maneira de falar. Com essa reflexão inicial, quero tratar hoje, com vocês, da utilização de palavras estrangeiras.

Palavras que já têm a nossa cara Muitas palavras que ainda escrevemos como o original na sua língua já têm
versões em português. Isso você pode verificar consultando o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, o Volp. Acesse a versão eletrônica na página da Academia Brasileira de Letras (ABL) na internet.

Como alguns exemplos, já é possível se libertar da invasão estrangeira deixando de lado, nos nossos textos em português, a grafia de layout, check up, knockout, stress e slaide, por exemplo. Essas, agora, você pode escrever leiaute, checape, nocaute, estresse e eslaide. Com isso, você mostra que está livre do jugo do colonialismo. Além disso, essa grafia é do Brasil.

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Toda língua tem suas características Cada linguagem tem a sua própria forma de se apresentar. Então, as palavras escritas com regras de outras línguas, quando incorporadas à nossa prática, acabam sendo aceitas na família e ganham roupas parecidas com seus novos parentes. Por isso foi assim com as palavras dos exemplos.

Algumas outras já estão nessa lista, e a gente nem imagina, mas estão entranhadas. Outras têm seus paralelos e sugestões de aportuguesamento, mas não colaram. Vejamos o exemplo de marrom. Essa é uma palavra que vem do francês (marron), e muita gente defendeu o uso de “castanho” para designar a cor. Mas, não rolou. Da mesma forma ocorreu com piquenique, outra palavra que muita gente ainda escreve “pic-nic” (inglês), “picknick”
(alemão) ou até “pique-nique” (francês). Já houve época em que se rejeitava mais e a orientação de trocar por “convescote” não foi adiante. Hoje, convescote é uma palavra que a maioria das pessoas não conhece. Aliás, você sabia que big bang, aquela grande explosão que deu origem ao universo, já tem sua grafia em português: bigue-bangue. Bonito e é do Brasil.

E os exageros? Podemos dizer, sim, que há exageros no uso de palavras estrangeiras. No mundo corporativo, muita gente ainda prefere (talvez por achar mais chique), o uso de coffee break, kickoff, “start-up”, entre outras. Muitas vezes o exagero faz as pessoas não entenderem. Então, mesmo sendo jargão, que no uso profissional as pessoas entenderão, é bom evitar, até dependendo da plateia.

Qual é o problema com “cafezinho”, “pontapé” e “inicial”. Só porque são do Brasil? Afinal, o football, há tanto tempo, já virou futebol e é nosso. Ninguém estranha mais. E nem precisamos fazer uso de elementos fora do inglês, talvez gerando a palavra “ludopédico”. Futebol, sem dúvida, já é do Brasil.

E na conversação? Além disso, há conversas e textos com tanta palavra misturada e muitas vezes desnecessárias que ficam até engraçadas. Já foi objeto de letra de música essa prática. Quem não se lembra do Samba do approach, de Zeca Baleiro?: Em uma parte, ele fala: “Meu temperamento é light / Minha casa é hi-tech / Toda hora rola um insight”. Muitas vezes ouvimos frases com misturas assim em que as palavras poderiam ser trocadas por outras em português. A análise é mais profunda, mas há ocasiões em que fica até incompreensível.

Em uma apresentação de que participei há pouco tempo, o palestrante, da área de marketing, utilizou excessivamente linguagem com termos técnicos em inglês. A maioria era totalmente traduzível. Como exemplo, falo de open meeting, que não há explicação para estar no lugar de reunião inicial.

Muita gente age assim porque fez cursos importantes fora do Brasil e deparou com termos naquela língua para designar situações novas. Isso gera termos da área que acabam sendo usado por aqui, e até quem não saiu do país só entende dessa forma e gera um círculo vicioso. Entretanto, podemos selecionar palavras em português para nomear essas experiências aprendidas. Por fim, um dos participantes da reunião chamou a atenção do palestrante pedindo que ele fosse mais claro, evitando o exagero das palavras estrangeiras.

Essa mudança do uso da linguagem, fazendo uma conexão (que alguns poderiam preferir link) com nossa reflexão inicial, pode significar a representação do orgulho da nossa língua. Nosso patrimônio. O ser vivo brasileiro que habita em nós e entre nós.

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