Um CD italiano com pegada brasuca

Recebi um CD que me fez pensar em como um compositor e intérprete tem de estar muito convicto de suas qualidades para lançar um disco cujas letras sejam escritas e cantadas num idioma que não o português.

Pois bem, a cantora Ilenia Mancini, italiana de Florença, morou seis anos na Vila Isabel, de Noel Rosa, onde a música brasileira a encantou. Até que se casou com Bruno Scantamburlo, um músico brasileiro e descendente de italianos.

Eis que os dois resolvem se mudar para a cidade natal de Ilenia. Após alguma dificuldade para conseguir os documentos italianos, Scantamburlo, multi- instrumentista de cordas que é, passou a tocar violão, guitarra, baixo, bandolim e cavaquinho em bares e teatros de Florença, ampliando seu contato com os instrumentistas de lá.

Mas foi após o nascimento de Isabel, a filha do casal, que Ilenia decidiu gravar um CD cantando músicas que já vinha compondo há algum tempo, com letras em italiano. Assim, contando com oito músicos italianos, e com direção musical, produção e arranjos de Bruno Scantamburlo (ele que foi também o responsável pela gravação e pela mixagem do CD, com direção artística da própria Ilenia Mancini), os dois se uniram para realizar um sonho concebido e germinado na Itália: o disco Luna Rosa – Cigana de Luna (independente).

Desde a introdução de “Saudade, Saudade” (Ilenia Mancini), música que abre os trabalhos e deságua numa contagiante levada pop, até a retomada de uma pegada similar em “Quero ficar Com Você (Ilenia Mancini), que fecha a tampa, tudo é claro, límpido, revelando verdades e contagiando-as com classe e sabor.

Passando pela boa sacada de gravar “Fita Amarela” (Noel Rosa) em português, todas as faixas têm arranjos muito bem concebidos: ora fortes no roquenrrol, ora delicados nas canções mais lentas, mas sempre interpretados  com carinho e reverência pelos instrumentistas.

Da primeira música até “Non Dimenticare Rio” (Ilenia Mancini), na metade do CD, senti a voz da Ilenia meio tímida, quase insegura, como que considerando ser impossível brilhar sobre arranjos tão plenos de vigor. A partir daí, sua voz passa a se mostrar mais firme, mais, digamos, adulta, plena da pujança típica de uma estreante que almeja criar um  trabalho belo e moderno.

As composições de Ilenia demonstram uma pureza que tem tudo para amadurecer e crescer. Os (bons) caminhos estão abertos, estão pulsantes, resta seguir em frente, rumo à música que, imagino, há de vir com ainda mais vigor num futuro não tão distante.

Em resumo, gostei muito. Mais do que isso: senti que tudo o que ali se ouve é fruto de um trabalho que por vezes, creio, se deu de forma solitária, tanto da parte de Ilenia Mancini quanto de Bruno Scantamburlo.

É a música rompendo fronteiras, revelando sincronias e ajuntando conhecimentos. Versos exalando universalidade. Sentimentos e emoções que afloram banhados por harmonias e melodias… boa música que pode agradar tanto o italiano quanto o brasileiro.

Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4

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