Um CD arrebatador

Não há ordem, não há desordem; nem início e nem fim, meio também não há. Então o que há? Há música! Há som e há ritmo. Há palavras para traduzir o indizível; há a teia de quem não propõe facilidades; há a música de quem dela faz um cordão luminoso que liberta a si e a quem mais quiser se desatar.

 

Ouça o transe daqueles que, atrevidos, deixam-se ver ao avesso. Dança ensandecida, corpos nus envoltos em bruma; dança de quem rodopia ao sabor do que lhe vier à telha; balé desconjuntado, pontas de pé – je sui désolée, mon amour, viens avec moi pro lixo que restou no rendez-vous.

Ouvir o silêncio e o grito; ir do cadafalso ao pico do swell avassalador. Ouvir o que tem a dizer o contraditório: proporcionar-lhe a chance de ser o que busca ser, ainda que ele diga o que não lhe faz sentido; deixar-se ser doido e juntar-se à loucura, cantar com ela e vê-la com olhos não da sádica indiferença, mas com os da alegria.

Tocado pelo som, após ouvir e enquanto ouço novamente… novamente… novamente…, Radiola em Transe (Sete Sóis, distribuição da Tratore), quarto CD da dupla maranhense Criolina, integrada por Alê Muniz e Luciana Simões, busquei dizer em três parágrafos o que pude sentir.

Com treze composições próprias e inéditas – duas delas em parceria com o poeta Celso Borges – e dirigido por Rovilson Pascoal, o CD instiga.

As letras nascem de onde menos se espera. Onde o desatento vê coisas para ele corriqueiras, é dali que o poeta busca inspiração. Conceitos expostos em cores fortes. Rimas? Apenas quando se fizerem imprescindíveis.

A instrumentação tem os pés nos anos 1970. A eletrônica envolve harmonicamente as melodias. Os arranjos brotam de cabeças afeitas a experimentações sonoras, que soam em variados momentos. Onde vinga o silêncio, prospera a música. Se há saudades de uma bateria Pinguim, de um Moog, das pedaleiras ou de sintetizadores… lá está o som deles nos arranjos.

O jeito como mesclam ritmos – reggae, rock’n’roll e outros gêneros – parece ser o mesmo com que constroem os versos de suas canções: descomedido, contestatório, musicalmente relevante, poeticamente inventivo.

Um ótimo núcleo instrumental foi arregimentado para dar vazão à criatividade dos arranjos. Para tanto, um consistente e fecundo grupo, repleto de músicos que tocam mais de um instrumento, lá estão: guitarra, bateria, baixo, trompete, trombone, gaita, percussões, piano, teclado e banjo, além dos já citados.

Por fim, Luciana Simões e Alê Muniz: suas vozes são absolutamente gêmeas das intenções de suas composições. Com arrebatamentos interpretativos, saem-se bem nas regiões médias, nas quais foram criadas as melodias.

Ouvir um disco como Radiola em Transe faz bem não só aos ouvidos, como também à alma e ao que nos convoca à esperança. E música, pelas mãos de Luciana e Alê, cumpre brilhantemente o papel de revigorar sonoridades e de realimentar entusiasmos desbotados ou entorpecidos.

Entusiasmando, sugiro: busquem ouvir esse CD.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

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