Só Guinga para…

decidir gravar Canção da Impermanência (Acoustic Music Records), um CD concebido para, humildemente, render homenagens a seus afetos;

ser tão modesto de um jeito que nem de longe permita transparecer quão genial ele é;

acrescentar genialidade a cada música que compõe, desmentindo os que acreditam que os CDs que lança já atingiram, decisivamente, o seu grau máximo no universo da música brasileira; mostrar que sua obra não é como um avião supersônico, que rapidamente atinge sua capacidade de ir o mais alto que suas turbinas o impulsionarem, para então entrar num estágio de “voo de cruzeiro”;

provar sem expor nem aceitar, só tocando e cantando, que sua música tem qualidade genialmente ilimitada no tempo… tempo… tempo;

criar uma música como “Meu Pai” (faixa 1), reverência musical a quem o concebeu e criou; compor canção tão poderosa; e, vocalizando-a, me permitir vê-la como homenagem também a meu pai, a todo pai; mostrar que seu violão fala por ele e por si; sinal de profundo amor;

homenagear “Dona Carmelita” (faixa 10), mãe do violonista Hélio Delmiro;

derramar lágrimas tristes diante da inefabilidade da finitude da obra, qualquer obra, ainda que ela possa se eternizar – “Lacrimare” (faixa 9), sons vocalizados sobre o ruído doído da dor vazando pelos olhos;

vocalizar onomatopeias sempre enérgicas, cujo sentido é obscuro para uns, nítido para outros; vocalizar sons que são palavras ainda não ditas; trastejar as cordas ao toque dos dedos no violão, sem que sequer, ou quase nada, percebamos;

arrasar no assovio em “Domingo de Nazareth” (faixa 6); fazer-nos relevar o exagero de reverber em seu assovio;

sacar que para homenagear a Rádio Nacional é fundamental revelar desde o seu prefixo (faixa 7) até compor um hino para ela (faixa 8);

ter a capacidade de invadir desavergonhadamente a alma de seus homenageados; criar canções como “São Dorival” (faixa 3), “Despedida de Garoto” (faixa 4), “Tom e Vinícius” (faixa 11); músicas que mergulham no mar da Bahia, que acenam ao eterno violonista, que têm acordes com inversões criadas por ele, mas que Tom, Caymmi e Garoto certamente assinariam;

viajar no “Trenzinho do Corcovado” (faixa 2), saboreando uma maçã do amor, olhando pela janela e vendo os postes irem mais rápido do que o trenzinho;

homenagear um doido, ainda que seja um “Doido de Deus” (faixa 5), parceria endoidada com Thiago Amud, ele mesmo um “endoidador” de palavras;

reinventar com acordes as moganguices de Charles Chaplin – “Chapliniana” (faixa 13); recompô-las com pausas e afretandos, que vão e vem, irrompem e interrompem gestos belos, momentos dramáticos do eterno Carlitos;

compor versos tão densamente ricos para sua “Canção da Impermanência” – belo título! (faixa 12);

provar que erudito e popular, definitivamente, se ajuntaram em sua obra, convertendo-a em música ainda não nomeada, pois ainda não totalmente entendida.

Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4

PS. Pensando bem, mesmo a voz de Guinga, o trastejar de seu violão e o reverber são

geniais.

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