Quando a bateria harmoniza

Em fevereiro de 2015 comentei o então segundo CD do baterista Di Stéffano e agora, mais de um ano depois, tenho nas mãos o seu terceiro álbum: Recomeço (independente). Tomo a liberdade de citar livremente alguns trechos daquela resenha.

“Prezados leitores e leitoras, hoje vou lhes falar de um CD instrumental – o trabalho do baterista, compositor e produtor musical Di Stéffano Wolff Bazilio. Ajustando acordes, abusando de elogiáveis dinâmicas, a bateria permite uma melhor liga entre o som de suas peças e o som dos outros instrumentos. A bateria de Di Stéffano age como se fosse um instrumento de harmonia, suas baquetas “tocam” os melhores acordes e assim melhor patenteiam as músicas. Harmoniosos, seus arranjos misturam os timbres e lhes dão equilíbrio.”

Que prazerosa surpresa, meu Deus! A bateria de Di Stéffano está ainda mais harmonizadora, expandindo substancialmente o dom de entremear instrumentos, liberando-os para solos e improvisos. Consciente de seu talento, dividindo compassos com a mestria de um hábil improvisador, sua bateria sabe que, se tocar é preciso, harmonizar é fundamental.

Di Stéffano é um baterista nato. Daqueles que, imagino, pegava panelas na cozinha de casa para tirar seus sons; daqueles para quem não existe ruído impertinente, mas sim música vinda do corpo ou de qualquer objeto, com textura, peso ou tamanho díspares.

Recomeço traz novamente à cena o Di Stéffano compositor e arranjador. São onze temas de sua autoria e três em parcerias diversas. Para gravá-los, contou com o talento do músico, pianista e engenheiro de som David Feldman que, além de mixar e masterizar todo o disco, tocou piano na maior parte das músicas.

Num belo trabalho gráfico de Cleiton Martorano, capa, contracapa e encarte embalam o álbum para presente natalino.

Ouço as músicas ganharem vida pelo toque dos instrumentistas que as interpretam: “Nicolas” (Di Stéffano) abre a tampa. Composta em homenagem ao filho, o tema tem presença marcante da bateria de Di Stéffano, da guitarra (Daniel Santiago) e do sax soprano do moçambicano Ivan Mazuze. Os três se desdobram para fazer do tema um divertimento tão solar quanto a criança que brinca sob a brisa do oceano.

“Velhos Amigos” (Di Stéffano e Eduardo Taufic) fecha a tampa. Tendo o baixo acústico a costurar o tema, enquanto a bateria de Di Stéffano une a todos, o flugel (Jessé Sadoc) leva a introdução até entregá-la ao piano (Eduardo Taufic), que chega para tocar um belo intermezzo. O baixo firma o chão, enquanto a bateria trisca o prato, seguindo o seu destino de a todos harmonizar.

Após muito ouvi-lo, concluída a audição de Recomeço, me vem à cabeça lhes dizer algo mais, paciente leitora, estimado leitor: um CD como este tem de estar em qualquer cedeteca que se preze… dito isso, ouso pedir para que se permita surpreender com a sonoridade instrumental que lá está – ela é coisa para se ter sempre por perto, para a ela recorrer em momentos de serena maturidade.

Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4

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