Música para confundir, não para explicar

Na coluna anterior, falei do CD de Ilenia Mancini, uma italiana que morou em Vila Isabel, no Rio, e que, após se casar com o músico brasileiro Bruno Scantamburlo, retornou com ele para Florença, sua terra natal. Lá, envolvida que ainda estava com a música brasileira, compôs algumas canções… mas no idioma italiano. Nascia o álbum Luna Rosa – Cigana de Luna.

Como eu já havia recebido o disco de um compositor e intérprete brasileiro todo com letras em italiano, intrigou-me a coincidência. Imaginei que tanto ele quanto Ilenia deveriam estar convictos de suas qualidades para lançar um álbum cujas letras fossem escritas em italiano e cantadas num idioma que não o português.

Carlos Careqa, compositor e cantor catarinense, lançou o CD Facciamo L’Amore (Barbearia Espiritual Discos, distribuição da Tratore). Voltando às suas origens italianas, em viagem a San Benedetto Po (banhada pelo Po, o maior rio fluvial da Itália), cidade de seu trisavô, Careqa teve vontade de compor em italiano. Tendo a ajudá-lo na empreitada o professor Mauro Finazzi, o trabalho, homenagem ao compositor italiano Luigi Tenco, aflorou.

Gravado ao vivo, o disco tem produção e arranjos de Mario Manga e Marcio Nigro, interpretados por Tiago Costa (piano), Claudio Tchernev (bateria), Luis Serralheiro Popô (tuba), Mario Manga (cello, guitarras e bandolim) e Marcio Nigro (guitarra, teclado, bandolim e violão), além das participações especiais de Anna Clementi, Bruna Caran, Celine Imbert, Mafalda Minnozzi, Mariano Deidda e Zeca Baleiro.

Os arranjos têm a cara de Careqa. Nada convencionais, partindo de uma arregimentação bem econômica (no sentido da quantidade), Manga e Nigro foram além de apenas fazer com que os instrumentos soassem “limpinhos”… mas fuleiros. Ao contrário, fizeram de seu ofício um modo de servir à ideia musical de Carlos Careqa, e não dela se servir.

Sua interpretação, carregada de força, nos faz entrar na composição, colocando-nos a seu lado, respirando com ele, sentindo que ali poderíamos cantar junto, como se estivéssemos em meio a um fogaréu carregado de energia vital.

“Cani Di Ladri”, segundo o próprio Careqa, fala dos “cães ladrões que ocupam a política brasileira”. Um solo de bateria acelera o pulso, dando início a um rock'n'roll. Intervenções da tuba se misturam à levada. O cello, por alguns compassos, desenha frases repetidas, enquanto a voz dobrada e com reverber conduz a um intermezzo do teclado. Bonito começo.

Mas nem tudo é rock. Gêneros diversos foram usados por Careqa, dando-lhes o jeitão de música italiana: “Cazzo”, com participação de Bruna Karam, tem letra que faz um jogo de palavras. E elas, as palavras, não lhes faltam.

“Porveve a Po”, homenagem ao rio Po, tem tuba (ela que está em todos os treze arranjos), bateria, guitarra e teclado marcando o ritmo acelerado.

Carlos Careqa, feito um Chacrinha do século 21, não veio à música para explicar, mas para confundir. Aí mora o seu talento.

Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4

Cadastre-se para receber as notícias do Jornal de Brasília.

COMPARTILHAR